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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

20
Jun14

7700: um desporto altamente individualizado

Bruno Vieira Amaral

Ontem, os assinantes da SportTv puderam assistir a uma das mais memoráveis exibições individuais deste torneio. Mesmo quando a Inglaterra marcou, o homem foi capaz de se recompor e oferecer a quem o ouvia pérolas como “dentes de coelho, olhar de predador”, “Godín lá no alto, a falar com os pássaros” e “são três milhões de uruguaios naquele remate.” Falo, é óbvio, de Luís Freitas Lobo, que ontem ascendeu ao panteão onde, até agora, só moravam Rui Tovar, Gabriel Alves e José Nicolau de Melo (este só para fazer a limpeza). O segundo golo de Suárez deixou-o num êxtase que merecia uma estátua de Bernini. Antes disso, enquanto o jogo esteve empatado a uma bola, notava-se-lhe a irritação. A certa altura, quando o narrador se embrenhava em complexos cálculos aritméticos (“ora, se a Costa Rica ganhar à Itália, melhor, se a Itália não ganhar à Costa Rica…”), Freitas Lobo, francamente exasperado pela forma como a pujança dos números estava a minar todas as oportunidades para a poesia, recomendou-lhe em tom ameaçador: “Não faças contas.” No final do jogo, perante o rosto de Suárez em lágrimas, Freitas Lobo balbuciou um ambíguo “lindo”, que não sabemos se foi pensado como adjectivo, substantivo ou advérbio de modo ou se foi apenas um refluxo verbal incontrolável. As imagens de Suárez abraçado a um companheiro no banco motivaram-lhe uma série de comentários sobre o que é e como se deve sentir o futebol e a medicina desportiva. Enfim, foi mesmo um grande espectáculo que só falhou por ter sido transmitido à mesma hora do jogo entre Inglaterra e o Uruguai, eclipsando, em parte, Suárez e o seu monólogo com o destino (chupem, poetas!).

 

Monólogo, sim. Ao longo dos tempos, comentadores, professores de ginástica, catalães de esquerda com responsabilidades em La Masía e idiotas em geral (grupo no qual me incluo por uma frase que escrevi ontem), têm tentado convencer as massas ignaras de que o futebol é um desporto colectivo. De um ponto de vista marxista, é uma ideia simpática que até podia ser abordada num livro a ser escrito por Thomas Piketty e José Neves. Na verdade, é uma falácia. O futebol é, mesmo, um desporto individual. A prova, que não é necessária mas que terei todo o gosto em apresentar, é o facto de os portugueses, ao fim da primeira semana de campeonato do mundo, estarem mais habilitados a reconhecer o tendão rotuliano de Ronaldo do que Rafa se, por acaso, se cruzassem com qualquer um deles na rua. Esta ideia rebuscada do desporto colectivo só serve de atenuante às grandes estrelas quando, por acaso, não conseguem render o que delas se espera nestas competições. É o caso de Ronaldo, Messi e Rooney que juntos, em três mundiais, conseguiram marcar o mesmo número de golos que Tim Cahill, e nenhum melhor do que aquele que o jogador australiano marcou contra a Holanda. Quer isto dizer que Cahill é melhor que aqueles três? Não. Quer dizer que Messi é um golo maradoniano nos quartos-de-final da Taça do Rei contra o Almeria ou o Levante e Maradona é um golo, de então para cá designado de maradoniano, contra a Inglaterra nos quartos-de-final de um campeonato do mundo. Luis Suárez teve uma época extraordinária no Liverpool. Mas golos ao Stoke City e ao Fulham são uma coisa e os golos de ontem são outra, e só têm em comum as assistências de Gerrard. São golos como os de ontem que, a exemplo dos comentários de Freitas Lobo, imortalizam um jogador: em jogos decisivos, nos maiores palcos, contra os maiores adversários.

 

Notas:

 

- Há uns meses, um defesa imprudente do Newcastle lesionou Suárez. Os patriotas uruguaios responderam com a fleuma que reservam para estas situações delicadas e ameaçaram o homem de morte, acusando-o de ter inutilizado a grande referência da selecção celeste. Ontem, como se viu, ficou demonstrado que, a ter existido, o plano era tudo menos absurdo. Com Suárez em campo, o Uruguai é diferente. Cavani, que no primeiro jogo parecia órfão, encontrou uma família de acolhimento na cabeça, nas pernas e nos dentes de Suárez. Uma família muito moderna, feliz e cheia de histórias para contar aos netos.

 

- Steven Gerrard escolheu o crepúsculo da carreira para elevar a arte de assistir os adversários nos momentos mais inoportunos – uma arte cujas regras foram imortalmente fixadas por Secretário, lateral-direito contemporâneo do escultor Kálamis – a patamares desconhecidos.

19
Jun14

7700: na baliza

Bruno Vieira Amaral

Eu tinha 10 anos e o sonho de ser guarda-redes. Estava sentado na bancada poente do velho estádio D. Manuel de Melo, no Barreiro. Era o jogo de apresentação do Barreirense. O Sporting foi a equipa convidada mas que como se sabia que não iria levar as maiores estrelas o estádio estava quase vazio. Na baliza à minha frente, estava o guarda-redes, de costas para os raros expectadores. Os colegas, miúdos com idade para serem filhos dele, chutam umas bolas molengas, tentando desenhar com a preguiça de Agosto arcos sobre o guarda-redes, que nem se esforça para chegar às bolas, basta seguir a trajectória com o olhar. Uma sobrevoou a baliza e aterrou duas filas abaixo de onde me encontrava. O guarda-redes virou-se para a bancada e eu atirei-lhe a bola, que não lhe chegou. Atirei-a novamente, então com todas as forças para não o desiludir. Ele segurou a bola e voltou para a baliza, para o lugar que era o dele. Depois de mais alguns remates, recolheram aos balneários e, para mim, o jogo que ainda não começara terminou nesse momento, o momento em que Vítor Damas se virou para a bancada e eu pude admirá-lo na elegância intacta dos seus 40 anos. Nós, benfiquistas, tínhamos o Bento louco, corajoso, cão de guarda; os sportinguistas tinham um príncipe, um guardião. O Damas não era do Sporting, era meu. Era ele que inspirava o meu sonho de ser guarda-redes. Foi a única vez que o vi num campo de futebol, no ocaso da carreira mas, inegável e soberano, ainda era o Damas. Nunca mais me esqueci daqueles minutos.

 

A defesa de Guillermo Ochoa ao cabeceamento de Neymar é uma daquelas jogadas que despertam em alguns miúdos singulares o desejo torturado de ocupar aquele espaço inóspito e solitário, onde nem a relva cresce. O guarda-redes será sempre guarda-redes. O indivíduo num jogo colectivo. Quando têm a bola, os colegas avançam deixando-o para trás, entregue a si mesmo. Quando o adversário cavalga para a área, lembram-se dele, lançam-lhe olhares de súplica, pedidos urgentes de salvação. Ao longo de uma carreira, avançados exaustos fazem-se médios, extremos procuram os espaços interiores onde não possam ser fustigados pelos ventos das alas, trincos viram líberos. Com a passagem do tempo, só o guarda-redes permanece guarda-redes. Quando começa a carreira já não tem para onde recuar. Vive na esperança masoquista de ser posto à prova. De ter ao menos uma vez na vida a oportunidade de ver uma bola rematada pelo adversário vir puxada ao cantinho e, nesse momento, não pensar mais e voar, mão aberta, bola em cima da linha, o desalento da multidão inimiga, a alegria dos companheiros em movimento porque o jogo não pára. Não pára. Na baliza, não há tempo para celebrações, para coreografias. É tudo ou nada. Vida ou morte.

 

“Guarda-redes” é um capítulo do meu romance As Primeiras Coisas e é dedicado ao Luz, guarda-redes do GDRP:

 

O semblante sério quando entrava em campo nas tardes de domingo, o último dos onze a pisar com o pé direito a terra batida para lá da linha lateral, a benzer-se de luvas calçadas, a braçadeira de capitão, o boné verde na cabeça quando ficava na baliza virada a sul, a voz que vencia o ruído do público e dava ordens à defesa, o corpo a voar para uma bola impossível, a atirar-se como um raio aos pés de um avançado, as mãos a apertarem a bola antes do pontapé de baliza que a fazia subir bem alto e aterrar junto aos pés do extremo direito, o braço forte que a arremessava para lá do meio campo, o joelho erguido nas saídas temerárias aos cruzamentos, os frangos míticos, que também os dava, como no jogo contra o Arrentela, uma bola chutada do meio-campo a chegar à baliza já quase num desmaio, Leal a agachar-se e a bola, num capricho de amante ressentida, a passar-lhe por baixo das pernas e a cruzar, com malícia vagarosa, a linha de golo, filha duma puta, garrafinha de água encostada ao poste quando o jogo andava no outro lado do campo, os gritos de incentivo, as palmas que espirravam pó das luvas, os abraços quando os jogos acabavam. Abandonou o futebol aos quarenta e três anos, depois de ser campeão da II Divisão Distrital[1]. Morreu poucos meses depois de ataque de coração. Na sede do CDA, entre calendários amarelecidos de loiras pneumáticas e uma prateleira com poeirentos troféus de lata, havia uma moldura com as velhas e ressequidas luvas de Leal, o boné verde e a faixa de campeão.



[1] Crónica do jogo CDA – CRI no jornal O Rio:

“O CDA sagrou-se ontem campeão da II Divisão Distrital da Associação de Futebol de Setúbal ao empatar a duas bolas com o CRI, irremediavelmente afastado do título. Contudo, foi a equipa de Alhos Vedros a mostrar mais argumentos durante a primeira parte do encontro, graças às acções dos dois extremos, Ferreirinha e Jacques, que em constantes trocas desposicionaram a defesa do CDA. Foi sem surpresa que, à passagem do minuto 26, o CRI se adiantou no marcador, com um golo do avançado Dino, a corresponder na perfeição a um cruzamento de Ferreirinha. O CDA não se encontrava, o meio-campo estava abúlico, do que se aproveitavam os jogadores do CRI para ganhar as segundas bolas. No entanto, contra a corrente de jogo, o CDA chegou ao empate na conversão de um pontapé da marca da grande penalidade, após um lance que deixou muitas dúvidas aos espectadores presentes no Campo Municipal das Amoreiras. Eurico assumiu a responsabilidade. Bola para um lado, guarda-redes para o outro, estava restabelecido o empate. O intervalo fez bem à equipa treinada por Maurício Gonçalves que regressou dos balneários com outro discernimento. O centro-campista Beto, um talento promissor que não deve ficar por muito tempo no Desportivo Amizade começou a pautar o jogo da equipa da casa, que se adiantou pela primeira vez à passagem do primeiro quarto de hora da segunda parte. Beto fez um passe na diagonal a rasgar a defesa contrária e foi o extremo, Amarelinho, a cumprir a oitava época ao serviço do clube, que apareceu em zona de finalização picando a bola com classe e desfeiteando um desamparado Miranda. O público entrou em delírio. O empate era suficiente para o CDA se sagrar campeão mas uma vitória era a cereja no topo do bolo. Todavia, faltava o drama para tornar inesquecível a conquista do CDA. A cinco minutos do final da contenda, Rodrigues repôs a igualdade na sequência de um pontapé de canto em que Leal não ficou isento de responsabilidades. O veterano guarda-redes saiu a destempo e, a partir daí, equipa enervou-se. Os últimos minutos foram de sufoco da equipa visitante. Já depois do minuto 90, o CRI beneficiou de um livre perigoso à entrada da área, mais descaído para o lado direito. Jacques executou o livre mas Leal, com uma defesa espantosa, foi buscar a bola lá onde “a coruja mora” e garantiu o título para as suas cores. Teria sido uma injustiça se o CDA perdesse um campeonato durante o qual foi sempre a melhor equipa, mas pode agradecer ao seu veterano guardião que ontem realizou a sua última partida pelo Desportivo.”

 

18
Jun14

7700: o futebol e as suas metáforas

Bruno Vieira Amaral

Para o José Eduardo Agualusa

 

Joseph-Antoine Bell, Cyrille Makanaky, François Omam-Biyik, Roger Milla: de cabeça, são estes os nomes de que me lembro da equipa dos Camarões que coloriu o cinzento mundial de 1990. A memória de outros nomes regressa depois ao ver a lista completa: Jean-Claude Pagal, Bonaventure Djonkep, Stephen Tataw. Repetir estes nomes não me traz de volta apenas um som dourado e longínquo da infância, é ainda o eco de uma esperança que reverberou pela primeira vez e com mais intensidade naquele Verão transalpino: o delírio messiânico de que um dia uma equipa africana seria capaz de conquistar o mundo. Acreditava-se que, quando tal sucedesse, seria não apesar das diferenças do futebol africano mas por causa dessas diferenças, aquilo a que se chamava a sua magia (outros diriam o perfume). Essa magia, observada e classificada pelos europeus, nunca foi, para esses europeus, mais do que as inesperadas e incompreensíveis erupções de talento no meio do caos. Bell, Tataw e Milla espantaram e divertiram o mundo. Saíram nos quartos-de-final, com palmadinhas nas costas pelos serviços prestados à causa do entretenimento. Quatro anos depois, com um Milla já sem forças para dançar, velho guerreiro cansado de tantas batalhas, a selecção dos Camarões saiu na primeira fase, sem estrondo. Nesse ano, a esperança já se mudara para a Nigéria, com os nossos conhecidos Peter Rufai e Rashidi Yekini, e grandes promessas como Jay-Jay Okocha, Daniel Amokachi e Viktor Ikpeba. Como a maior parte destes jogadores jogava na Europa, ao contrário do que acontecia com a selecção dos Camarões de 1990, esperava-se que a magia africana aliada à experiência europeia resultasse numa receita infalível. Não resultou. Em 94 e 98, a Nigéria foi a corporização do mito da magia africana e também a corporização dos defeitos estruturais que impediriam o mito de se transformar em realidade. A Nigéria deslumbrou e colapsou. O mesmo aconteceu com o Senegal, em 2002, e com o Gana, em 2010, igualmente incapazes de superar o limite teleológico dos quartos-de-final.

 

Ao longo destes 24 anos, desde o fenómeno Camarões até hoje, o discurso sobre o futebol africano – as suas qualidades, defeitos e hipóteses de sucesso – é praticamente idêntico ao discurso-padrão dos europeus sobre África: referência às riquezas naturais e deploração pelo desperdício, pela incapacidade de os africanos se organizarem de forma a tirar partido dos seus recursos. Se hoje já vemos treinadores negros a orientar as selecções africanas, a regra quase sempre foi a do sábio branco designado para civilizar os selvagens. Enquanto isso, os jogadores africanos eram reduzidos a uma caricatura (magia, alegria, dança), a um estado de infantilidade futebolística, meninos-bichos fascinados pelo objecto-bola, capazes de truques e cabriolas mas com uma tendência genética para a indisciplina, para a ignorância táctica. Nem precisamos de ir muito longe: a nossa selecção campeã do mundo sem balizas continua a ser vista assim pelos verdadeiros europeus, os poderosos, do Norte. Com a vitória da selecção alemã, regressaram os insultos a Cristiano Ronaldo, a sua demissão enquanto jogador para os grandes momentos, apresentando, na inversa, as máquinas alemãs, austeras mas terrivelmente eficazes. Miguel Sousa Tavares, na sua crónica no jornal A Bola, deu seguimento a esta narrativa: viram como Müller não usa brincos, não é vedeta, é humilde e eficaz? Quem é que está nos antípodas de Müller? Curiosamente, mesmo quando a selecção alemã deslumbra, como em 2010, as metáforas nunca se feminizam, nunca há magias nem perfumes. As metáforas são sempre tecnológicas e militares, bélicas e industriais, justificando a supremacia: os alemães atropelam, esmagam, dizimam, botas cardadas devastando campos de flores. Neste caso, somos nós os africanos.

 

Pensei em tudo isto ao ver no outro dia um pouco dos jogos do Gana e da Nigéria e lembrando-me que este ano, finalmente, ainda não ouvi ninguém a dizer que chegou a vez do futebol africano. Os nomes – Muntari, Obi Mikel, Ameobi, Boateng – já não têm aquela ressonância exótica, conhecemo-los de os vermos jogar semanalmente nos melhores clubes europeus. Os tempos mudaram. Yaya Touré ou Didier Drogba, entre muitos outros, conseguiram, por mérito próprio, ultrapassar os limites de recreio infantil, selvagem, onde quiseram fechar o jogador africano. Hoje, já se fala pouco na magia africana e em África como destino futebolístico de um futuro utópico porque África já está aqui, fiável, cerebral, atlética, criativa, nestes jogadores. E noutros, de um passado que nos é próximo, que desafiaram, inconscientemente e avant la lettre, essas narrativas imbecis: que eficácia e fiabilidade faltavam a Eusébio? Que cultura táctica e liderança faltavam a Coluna? Não ouvir a velha conversa de que este é que vai sei o ano do futebol africano é a grande conquista do futebol africano e dos grandes jogadores africanos que, mais do que isso, são grandes jogadores de futebol.

17
Jun14

7700: reacções à desgraça

Bruno Vieira Amaral

As reacções a uma derrota da selecção portuguesa são sempre interessantes num sentido antropológico e não lhes conseguimos escapar. Ligamos a televisão depois do jogo e os comentadores, contristados ou perplexos, descobrem as lacunas da convocatória, identificam os problemas no onze, lamentam o descontrolo de Pepe, resignam-se perante os sinais débeis de recuperação económica. Não há-de faltar um queirosiano que, numa metáfora sanitária, proponha varrer porcarias, ou que, mais confortável na arquitectura, sonhe com o repensar de todo o edifício do futebol de formação, o que implicará a disposição das cadeiras das salas do ensino básico em 4-3-3. Fora do comentadorismo profissional, um lunático lembra razoavelmente que Pepe é brasileiro, outro diz que o pai de Bruno Alves também é brasileiro e um terceiro, impossibilitado de alterar a naturalidade de Rui Patrício, acusa-o de ser frangueiro contumaz. Sportinguistas incorrigíveis defendem, sem ironia, que a história seria diferente se Adrien estivesse em campo. Só que um cérebro que extrai da observação do jogo de ontem a conclusão de que os problemas da nossa equipa se resolveriam com a entrada de Adrien não é digno de confiança. Já no Facebook, entre piadas envolvendo camelos e Angela Merkel, alguns indignados acusavam os jogadores de não honrarem a camisola. Presumo que o conceito de honrar a camisola passe, por exemplo, por beijar o escudo quando se marca um golo, actividade que os alemães impediram com relativo à-vontade. Não havendo golos, talvez honrar a camisola seja uma mistura da predisposição metafísica para uivar durante o hino com o impulso incontrolável para correrias acéfalas em que o jogador, por manifestamente estar a correr à toa mas com a convicção oposta, demonstra todo o seu inesgotável amor à pátria, até ser derrubado pela humidade baiana ou pela sombra de um alemão. Depois há um grupo curioso especialista em tomar as dores dos emigrantes. Para os elementos deste grupo, o pior de uma derrota da selecção, do Benfica ou da representante portuguesa no Eurofestival, é o sentimento de vergonha que irá cobrir toda a comunidade portuguesa durante duas semanas de luto interior e troça alheia. No lote das minhas reacções preferidas no facebook, um universo limitado que exclui analfabetos e Pacheco Pereira, gosto das semi-esotéricas ou de causalidade não imediatamente detectável. Explico: ontem, várias pessoas atribuíram a goleada dos alemães não à efectiva superioridade dos alemães mas a uma deliberação cósmica de justiça poética em que a selecção portuguesa estaria a pagar, por decreto divino, pela schadenfreude (já que estamos em ressaca germânica) que assolou alguns espíritos lusitanos graças à humilhação espanhola às mãos dos holandeses. Apenas sabedoria popular: “não te rias do vizinho que o teu mal vem a caminho.” Ou seja, para a próxima, ficamos contentes e caladinhos que nem ratos perante a desgraça de nuestros hermanos, caso contrário o universo, sempre atento a estas faltas de solidariedade entre vizinhos, tratará de pôr no nosso caminho severos protestantes para nos dar uma lição das boas. Eu também tenho uma explicação do género e que, na minha modéstia, creio ser um pouco mais fundamentada: desde que os limpámos com a nossa equipa B no Euro 2000, os alemães têm feito questão de esfregar o chão com a equipa das quinas sempre que a encontram – e, para felicidade deles, têm-na encontrado muitas vezes. Já são quatro derrotas em quatro jogos oficiais, enquanto lembramos, satisfeitos e alvares, aqueles três golos de Sérgio Conceição. A arbitragem também figurou em certas explicações secundárias, mas nada com a intensidade de outros momentos gloriosos como o penalty de Abel Xavier ou o murro de João Vieira Pinto ao árbitro. Finalmente, não podia faltar a figura do português insubmisso que não vai em futebóis e que já topou que isto da crise não é para todos: “não há dinheiro, não há dinheiro, mas vai tudo para o Brasil ver a bola.”

 

PS: quanto à questão Klose, por enquanto, tudo bem.

16
Jun14

7700: Klose but no cigar

Bruno Vieira Amaral

As estatísticas e os factos sobre mundiais são enormes repositórios do insólito. Além disso, as estatísticas costumam ser burras, sobretudo quando na posse de cabeças burras, e os factos são sempre impiedosos, sem cuidar da sensatez mãos que os manejam. Vejamos, por exemplo, o curioso caso de Oleg Salenko, que foi, a par de Hristo Stoitchkov, o melhor marcador do mundial de 94. Fantástico! Que proeza incrível! Mais: cinco dos seis golos do avançado russo nesse torneio foram marcados no mesmo jogo. Contra os Camarões. Um jogo que já não contava para nada. Uma glória triste. Eu vi o jogo e, ao contrário do que sucedeu há poucos dias ao ver os golos da Holanda contra a Espanha, a sensação não foi a de ver uma das páginas mais inesquecíveis dos mundiais a ser escrita mas a de assistir, em directo, à elaboração de uma das mais extravagantes notas de rodapé de todos os tempos. Naquela tarde sob o inclemente sol californiano, cada golo desajeitado de Salenko, até atingir os cinco que serão o seu penhor para a eternidade, foi um prego na nossa sensibilidade, a sensibilidade de quem continua a acreditar que os quatro golos de Eusébio à Coreia do Norte, e até os quatro golos de Butragueño à Dinamarca, são registos infinitamente superiores ao do pobre Salenko que, contudo, marcou mais um, o seu incontestável argumento a favor dos factos. Consultem todos os almanaques e wikipedias e lá encontrarão a façanha acabrunhada de Salenko: melhor marcador daquele mundial e recordista de golos marcados num só jogo. É por isso que, hoje, a nossa selecção tem pela frente muito mais que o tão importante primeiro jogo. Cabe aos nossos jogadores, sobretudo ao quarteto defensivo e a o guarda-redes, evitar que Miroslav Klose, aquele panzer desengonçado, se torne o melhor marcador da história dos mundiais, o que seria um atentado futebolístico, uma ofensa estética e uma imortalização injusta pela via burocrática da estatística. Não pode acontecer. E se tiver de acontecer, se essa for a vontade dos deuses imbecis que abençoaram Salenko e todos os da sua igualha, então ao menos que o nome de Portugal não fique associado a mais uma infeliz, porém inapagável, nota de rodapé da história do futebol. Entre tantos e tão geniais avançados que aprimoraram a arte de marcar golos, que resistiram à ideia de que um golo é apenas a certificação fatal e desapaixonada de um processo anterior e que instituíram uma arte autónoma, o golo como momento independente da sequência contínua do tempo, suspensão temporária das leis da física, o mundo não pode permitir que seja Klose a figurar no topo. Depois de vermos o golo de Van Persie, aquela ordem ténue dada à bola em pleno voo, com as coordenadas exactas para sobrevoar Casillas, a coroação de Klose seria um insulto, uma mancha vergonhosa, um retrocesso civilizacional a ser chumbado até pelos conspícuos juízes do palácio Ratton. Se aquele senhor terminar este torneio como o melhor marcador de sempre, no dia seguinte estaremos todos, mentalmente, de regresso às cavernas. É preciso evitar semelhante tragédia. Se tudo o resto falhar, confiemos nas artes marciais de Bruno Alves e nos instintos homicidas de Pepe. Confiemos que o futebol encontrará maneira de escrever direito sobre as linhas tortas da estatística.

15
Jun14

7700: dar os pontos aos ii

Bruno Vieira Amaral

Itália e Inglaterra proporcionaram, no dizer dos entendidos, um excelente espectáculo de futebol. Pergunto-me: quando é que viraram o mundo do avesso? Por razões estéticas e pragmáticas, a Itália nunca se preocupou em proporcionar excelentes espectáculos de futebol. A cada Mundial, há uma mão-cheia de equipas que diligentemente se entregam a essa missão, embora costumem cair, com toda a espectacularidade, por volta dos quartos-de-final, o mais tardar. Quanto à Inglaterra, mais do que a produzir excelentes espectáculos de futebol, é uma nação destinada a sofrê-los. Aliás, as participações dos ingleses em campeonatos do mundo e da Europa inserem-se na categoria de entretenimento. E no entanto, neste ano da graça de 2014, Itália e Inglaterra proporcionaram mesmo um excelente espectáculo de futebol. Nos dias que correm, são duas das selecções mais simpáticas e amáveis (no sentido em que se oferecem ao amor alheio) do mundo. Dos respectivos bancos, os jogadores recebem emanações positivas: Cesare Prandelli, ar de galã florentino de trattoria, não é um estóico defensor da fealdade futebolística que sempre caracterizou a Bella Italia. Roy Hogdson, professor prudente, também não quer que a selecção inglesa seja apenas um conjunto rupestre de figuras secundárias do seu próprio campeonato. Com ele, o velho kick and rush é matéria museológica. Sábio, percebeu que a maneira mais rápida de se construir uma verdadeira equipa nestas condições é aproveitar uma base pré-existente, neste caso, a base do Liverpool de Brendan Rodgers, ontem à noite transplantada para a Amazónia. Prandelli também beneficia de uma espinha dorsal prêt-a-porter: a da Juventus tricampeã de Itália e, não se esqueçam, eliminada pelo Benfica nas meias-finais da estupenda Liga Europa. Mas, além destas paticularidades, o centro de um jogo emocionante será sempre a capacidade dos jogadores em campo. E ontem, a mais comovente foi a capacidade de Raheem Sterling para a alegria. A certa altura, já cansado, fintou Marchisio a passo numa área de terreno que daria à justa para erguer um poste de iluminação. E as recepções? Na minha modesta opinião, a qualidade de um jogador mede-se de forma bastante fiável pela qualidade das recepções, e por isso afirmo que Sterling é um génio. Não apenas um louco furioso e veloz como Theo Walcott ou Aaron Lennon, que confundem relvado com pista de tartan, mas um génio capaz de ajoelhar adversários em tocas de coelho. Mesmo quando arriscou mais uma finta, um remate improvável, Sterling não o fez por egoísmo, mas inspirado pela alegria pura dos seus dezanove anos. Para esta nova Inglaterra, contribui também a feliz ausência de mastodontes como Ferdinand e Terry. Assim, em vez de uma colecção de cromos afectada pelo spleen de fim de época e parasitada pelas oxigenadas e penumáticas wags, temos um organismo vivo e enérgico. A Itália é outra coisa. É um corpo ligado a Pirlo, como certos corpos estão ligados à máquina. Se não estou em erro, a máquina de efectuar passes que é Pirlo errou dois em todo o jogo. Quando nos lembramos do número de passes que o homem falha é porque na sinfonia pirliana um passe falhado é uma nota em falso: dá-se logo por ela. Claro que toda a equipa italiana impressiona porque todos os jogadores sabem o que estão a fazer em campo. O que, tendo em conta que Balotelli é um deles, é um feito de proporções shakespearianas. Quando tudo acabou, ficou a amargura de um jogo como estes não se poder decidir através da nota artística: três pontos para Itália, três pontos para Inglaterra e flores para Sterling e Pirlo.

 

Notas:

- Uruguai – Costa Rica: em dez minutos que vi do jogo, assisti a duas entradas que terei de classificar de “uruguaias”, não por terem sido perpetradas por uruguaios mas por serem “uruguaias”. Do lado de lá da linha lateral, o impecável professor Tabárez, perfil de cantor de milongas em amenas noites portenãs, deve-se ter sentido insultado por tamanha brutalidade.

 

- Campbell: o campeonato do mundo foi inventado para assistirmos à explosão destas figuras vindas do nada (atenção, o nada a que me refiro está povoado de olheiros do Arsenal, Carlos Daniel e Luís Freitas Lobo).

 

- Colômbia – Grécia: finalmente percebe-se a frase de Jesus: quem não gostaria de pegar em três jogadores banais e ordenar-lhes que se transformassem num Cuadrado?

14
Jun14

7700: Don Vicente

Bruno Vieira Amaral

Tudo o que hoje se escrever sobre Vicente Del Bosque vai soar a um cobarde ajuste de contas, uma pedra atirada por alguém escondido atrás do arbusto da goleada laranja. Não é o caso. Ontem, enquanto assistia ao jogo, a minha preocupação não era a de observar as movimentações dos jogadores mas a de reunir informação suficiente que me permitisse responder a uma pergunta simples: o que é Vicente del Bosque? É verdade que a marcha do resultado não ajudou à minha concentração. A certa altura, fechei os olhos tentando fixar a imagem do seleccionador espanhol e só via Casillas a perder a bola para Van Persie. Até que, perto do final, a solução foi-me revelada: Vicente del Bosque, Don Vicente, com aquele aspecto romanesco de abade de província, é o contrário de um fantasma. Os fantasmas manifestam a sua presença das mais variadas formas, abrindo gavetas e portas, arrastando correntes pelos corredores, apagando velas em momentos nada festivos. Ninguém os vê mas toda a gente – pronto, talvez só os mais histéricos – tem a certeza da sua presença. Ora, a presença física de Don Vicente é inequívoca, como puderam testemunhar ontem milhões de espectadores em todo o mundo. O que não sentimos são os sinais imateriais da sua presença. Toda a gente o vê mas é como se ele não existisse. O currículo de del Bosque é impressionante e eu só tenho uma boa justificação para a riqueza desse currículo: del Bosque é o grande especialista na arte de não se intrometer, através de tácticas e de minuciosos estudos do adversário, entre os jogadores que lhe põem ao dispor e aquilo que estes naturalmente conseguem fazer. Ele está lá porque alguém tem de ir às conferências de imprensa falar sobre as coisas, porque a sociedade, apesar dos esforços dos progressistas, ainda não está preparada para que uma equipa se apresente sem treinador e porque, caso os resultados sejam maus, é preciso ter um bode expiatório à mão. Creio que del Bosque está perfeitamente habilitado a desempenhar estas e toda uma série de tarefas menores que lhe atribuam. E conseguirá fazê-lo sem se atrever, nem que seja numa única substituição, a imprimir à equipa o seu “cunho pessoal”, para utilizar uma expressão máriowilsoniana. Se há coisa que Del Bosque sabe fazer é imprimir, ao de leve, o seu cunho impessoal. Isto é uma virtude quando tem bons jogadores no máximo das suas capacidades e uma tragédia quando os jogadores não são assim tão bons ou não estão em grande forma. Ontem, depois de a Espanha sofrer mais um golo, já não sei se o terceiro ou quarto, Del Bosque esbracejou junto à linha lateral. O efeito foi nulo. Os gestos de um fantasma visível. Depois, ordenou umas substituições e o resultado foi igualmente nulo. Um fantasma que se vê e não se sente. Treinadores como Del Bosque limitam-se a andar a estabelecer pontes, a promover consensos e a gerir conflitos, numa postura que é apresentada como sendo de grande sabedoria confuciana e que é apenas analgésica e sedativa. Um seleccionador é, na verdade, um aposentado que se recusa a ir para o parque jogar sueca ou a quem falta o espírito para se dedicar ao engate de viúvas em aulas de danças de salão. Acontece que Don Vicente, mesmo quando era treinador do Real Madrid, já tinha esse ar episódico, de treinador dominical de quem se espera que, a qualquer momento, tire cervejas da geleira e as distribua pela malta sentada no banco. É o arquétipo do seleccionador. O contrário de um fantasma. Vê-se mas nunca abre as portas que os seus jogadores não conseguem abrir sozinhos.

13
Jun14

7700: missionários da bola

Bruno Vieira Amaral

Podia escrever sobre o Rakitic, que não só dá belos beijos gregos a companheiros de equipa, como lhes oferece bolas perfeitas, redondas, suaves, em bandejas invisíveis lançadas a quarenta metros de distância; podia escrever sobre aquela biqueirada subtil de Óscar, um rapaz com ar de juvenil e que ontem correu mais que uma associação de quenianos (e o Brasil tinha um falso autêntico queniano no banco); podia escrever sobre um passe inútil mas belo (que é diferente de um passe belo mas inútil) de Neymar; podia escrever sobre a robusta imprestabilidade de Hulk em todas as acções de jogo em que participou; podia escrever sobre uma magnífica defesa de Pletikosa, sobre Bernard agarrado a um croata que o limpou do ombro como se se libertasse de um grão de areia, sobre Fred, um jogador que tem a virtude de nos tornar mais benévolos quando olhamos para o trio de avançados da selecção portuguesa; podia, finalmente, escrever sobre o senhor Nichimura e aquele penalty, só que ontem escrevi que, para mim, o mundial começava hoje e não me quero desmentir logo ao terceiro dia de crónicas. Por isso escreverei sobre a Austrália, que hoje se estreia contra o Chile. Nunca me tinha questionado sobre a simpatia que equipas oriundas de países que não querem saber de futebol para nada me despertam. Quando dediquei alguns minutos ao assunto, concluí que, esgotadas todas as tentativas razoáveis de convencer os selvagens da superioridade do futebol – incluindo organizações de mundiais e exportação de simpáticas e decadentes estrelas para as suas ligas de latão – o meu desejo de que tivessem sucesso seria uma forma desesperada de os tentar convencer pela linguagem universal do sucesso. Como quem diz: se não sois capazes de apreciar este belo desporto, apreciai ao menos o reconhecimento proporcionado pelas vitórias. Isto deu origem a equívocos dos quais saímos todos derrotados. Os relativos sucessos de países como os EUA não só não lhes fizeram nascer uma súbita e avassaladora paixão pelo futebol, como ainda lhes alimentaram a soberba e a prepotência de nos vencerem num desporto que para nós é tudo e para eles é quase nada. Tentámos suborná-los com o sucesso e ficámos sem dinheiro e sem mercadoria. Mas como, mesmo assim, continuo a simpatizar com estas equipas excêntricas, tive de encontrar outra explicação. Acho que é esta: quero que estes rapazes vençam porque são uma espécie de mártires do futebol, missionários a pregar em território inimigo. Para imaginarmos como um futebolista australiano ou norte-americano é visto pelos seus compatriotas só temos de pensar na forma como olhamos para aqueles grupos bizarros que, periodicamente, se juntam em campos obscuros da margem sul para jogar basebol. Tirando a natural tendência de qualquer sociedade para produzir bolsas refractárias e alienígenas – fanáticos de cosplay, seguidores de Madame Blavatsky ou eleitores que votam no POUS  – só um eventual apoio da CIA justifica, no meu limitado entendimento, o esforço necessário não só para aprender as regras do basebol como também para as pôr em prática num complexo desportivo da Verdizela aos domingos de manhã. Enfim, quero que os australianos ganhem porque são corajosos. No lugar onde nasceram, jogar à bola não lhe traz prestígio nem dinheiro. Serão sempre onze malucos aos pontapés numa bola. Curiosamente, como aqueles jamaicanos que participaram nos Jogos Olímpicos de Inverno, parecem ser os que mais se divertem nestes certames. No fundo, eles estão ali a representar mais do que a sua nação (que não quer saber deles para nada), estão a representar os milhões de adeptos que, em frente do televisor, sonharam um dia estar do outro lado. É em nome dessa cumplicidade amadora que festejo todos os golos que marcam.

12
Jun14

7700: A 1ª Copa Quesefodista

Bruno Vieira Amaral

Para o Reinaldo Moraes

 

A FIFA, que é a organização mais poderosa e mais corrupta do mundo, depois do FMI e da ‘Ndrangheta, tem fama de aterrar nos países escolhidos para albergar as competições que a própria FIFA oferece ao seu cortejo de saqueadores e começar logo a dar ordens, cadernos de encargos, “preto, olha a massa”, acessibilidades, transportes e essas coisas todas que transformam qualquer país atrasado no “state of the art”, no último grito, no “uau, estas estações de metro são tipo Kubrick”. Até que a FIFA chegou ao Brasil. Foi lindo. Aquele sujeito que deve ser suíço ou flamengo, protestante é de certeza, Jérôme Valcke, não sei quê da FIFA, andou a fazer cara de alemão, mal disposto com os índios e os mosquitos e os estádios que não saíam do papel, e a ameaçar, e a dizer que assim não dava, com aquela voz de capataz primeiro-mundano, vilão ideal para a versão 3D do Orientalismo, até que se viu que o homem não aguentou o Brasil. Desistiu. Que se dane. Que se foda. É. Foi preciso chegar ao Brasil para a FIFA descobrir, com muitos anos de atraso, o “quesefodismo”. Os estádios não estão prontos? Que se foda. Há greves dos trabalhadores do metro? Que se foda. Derrapagens de milhões? Que se foda. Parabéns ao Brasil por ter dado uma lição graciosa à FIFA e por disponibilizar a todo o mundo a primeira copa “quesefodista” da história.

 

PS: descobri que, afinal, o Valcke é francês. Que se foda.

12
Jun14

7700: Dia Inaugural

Bruno Vieira Amaral

Hoje é o dia mais chato do mundial depois do dia do jogo de atribuição do 3º lugar. Está ao nível daqueles dias de purgatório entre os quartos-de-final e as meias-finais e entre as meias e a final, quando os jornalistas desterrados fazem reportagens sobre autóctones que vendem piricas e criam tucucas e têm um primo que foi casado com uma portuguesa, “gente boa”, e descobrem aos gritinhos que uma antiga lenda dos relvados agora é proprietário de uma oficina ou dono de uma empresa de transportes. É o dia inaugural. Os adeptos estão ansiosos por ver futebol e eles dão-nos coreografias e música mexida, tecidos esvoaçantes e pirotecnia. Quando o jogo começa há uma sensação de falsa partida. Durante a primeira parte, jogadores e público – no estádio e em casa – não sabem se já é a sério ou se aquilo ainda faz parte do espectáculo dos Fura dels Baus. Um Camarões-Honduras ou um Costa-Rica-Tunísia disputado a meio do campeonato às três da tarde num estádio de 40 mil lugares em plena Amazónia tem um potencial competitivo muito superior ao de um Brasil-Alemanha no primeiro dia da competição. Felizmente, as regras da Fifa tratam de evitar esses confrontos violentos logo no início. Sai sempre um soporífero Brasil-Escócia, um paupérrimo Alemanha-Bolívia ou mesmo um África do Sul-México que ninguém sabe de onde veio e para onde foi. O efeito é o de uma anestesia antes de uma operação complicada: “Isto vai ser um mês difícil, com muito futebol, por isso, para começar, tem de levar com este joguinho que é muito relaxante. É provável que, daqui a nada comece a ver uns rapazinhos loiros de camisolas axadrezadas, não se preocupe, é mesmo assim”. A única esperança é que haja uma surpresa, que o mais forte seja derrotado e que o choque seja forte o suficiente para acordar o mundo da letargia em que duas horas de vai-vem televisivo entre o rabo de Jennifer Lopez e a cara de Dilma Rousseff o irão sem dúvida depositar. No que me diz respeito, o mundial a sério começa amanhã. Hoje é só circo, fumaça e escrete. Nada que me interesse.

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