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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

01
Ago14

Oceano

Bruno Vieira Amaral

Fomos até uma esplanada de onde se via a praia, o Oceano Atlântico no seu fim ou no começo. Bebemos uma cerveja, falámos sobre as nossas vidas, sem aprofundar. Discutimos superficialmente o valor das rendas, o processo de compra de casa, evitando as intimidades, e quando demos por nós estávamos a salvo, a divagar sobre a sociedade em geral, a escola pública, a forma pouco civilizada como os portugueses cuidam do que é seu, felizes por evitarmos o caminho da mágoa. Só que a mágoa estava lá. Sempre esteve e nós sabíamos, e fingíamos que não estava para que pudéssemos prosseguir. Ignorar a mágoa que, todavia, existe, é uma arte que eu e o meu pai dominamos como ninguém. Ela está connosco em cada momento: quando passeámos pelos vinhedos do sul de França, quando a minha madrasta me ofereceu um porta-chaves comprado na loja de recordações do castelo de Palmela, quando corremos pelas ruas frias de Kandersteg no único Natal que passámos juntos. A mágoa esteve sempre lá, de vigia, controlando o que dizíamos, cortando a manifestação expansiva de sentimentos, trabalhando o nosso cinismo até que este se tornasse uma pedra perfeita de engaste, valiosa e inútil. Descemos até à praia. Eram quase oito horas. Eram poucas as pessoas no areal. Na água, chapinhava uma criança solitária. Pareceu-me que o meu pai tinha vontade de se lançar à água e nadar, nadar, nadar. Uma vez contou-me os problemas que teve numa prova aquática na Legião. Quase morreu afogado. “Deve ser um medo de família.” Eu não sei nadar mas não gosto de falar disso. Ele também prefere não falar sobre o assunto. Incomoda-o. Que o filho  não saiba nadar é, para ele, a prova irrefutável da sua ausência, o dedo acusador. Não quero falar disso. Estávamos muito perto da água. Muito perto daquilo que nos magoava. Decidimos que estava na hora de regressar a casa, onde quer que fosse.

01
Ago14

Carrossel

Bruno Vieira Amaral

A minha contribuição para o Carrossel da Flanzine:

 

 

 

É impossível ter certezas sobre certos acontecimentos. A proliferação de versões não conduz a uma verdade. Leva à incerteza e, por fim, como alívio, ao esquecimento. Hoje, é estranha a afirmação de que, naquela noite, ninguém viu nada, porque havia centenas de pessoas no recinto das festas e, nos dias que se seguiram, muitas falavam sobre o que tinham visto, sobre o que tinham ouvido, sobre o que outros mais bem informados tinham visto, sobre o que outros em lugares mais próximos da tragédia tinham ouvido.

 

Havia, como sempre, um barulho geral, eléctrico. Uma embriaguez, visão turva. Talvez por isso certos testemunhos com cópia de pormenores tenham sido desacreditados. Não porque lhes atribuíssem má-fé ou neles houvesse a intenção de desviar o curso das investigações, mas porque o diletantismo era denunciado pela volúpia no relato, pela forma mítica como descreviam as quedas das crianças nos castelos insufláveis, as camisolas piratas do Ronaldo e do Messi, o cheiro a gasóleo dos geradores, as unhas amarelas dos pés dos vendedores de estatuária africana, desenhando círculos de fábula à volta de um centro que nunca poderiam – e nem queriam - atingir. Seis meses durou o frenesi narrativo. Até que a falta de resultados das investigações policiais fez com que as pessoas começassem a evitar o assunto. Não por cansaço, nem pelo tipo de desinteresse que afecta mentes habituadas aos estímulos das novelas da imprensa da felicidade, mas por receio de que a verdade, a ser apurada, se revelasse tão terrível que ninguém que tivesse estado nas festas naquela noite a poderia suportar. Hoje, quando por distracção se menciona aquela noite desagradável de Junho, de imediato alguém avança com um conjunto de pormenores patéticos que a diluem numa espécie de corrente perpétua de memórias das festas: as alcateias de adolescentes muito pintadas a dedilharem mensagens e soltando “Foda-ses” que já não indignavam ninguém; um homem gordo e suado a cantar os números do bingo que hão-de ser a sorte de um infeliz; uma mulher gorda e suada a cortar a massa das farturas com uma intencionalidade oblíqua que sugere ódios persistentes, dívidas, traições; a rapariga que, na zona das bancas sofisticadas, oferece ginjinhas em copos de chocolate; o homem que, durante os sete dias de festa, dançou sozinho no terreiro, ao som de um acordeão nervoso, abraçado a um par invisível.

 

Lembro-me que, alguns meses depois, alguém amarrou uma coroa de flores a um poste. Não tinha qualquer mensagem. Ainda hoje não se sabe quem foi o autor do gesto. O que este revela é que, no meio de um desejo colectivo de amnésia, alguém ousou cravar um prego na nossa consciência. Podia ter sido uma homenagem de intenções puras. Talvez. Mas a coroa de flores assim exposta foi sentida como uma acusação à nossa alegria fútil. E só isso justifica que, na noite seguinte, a coroa tenha sido retirada por mãos anónimas, furtivas, e que reafirmavam a vontade maioritária de esquecer tudo o que acontecera. Até porque o Verão estava quase a chegar, as primeiras festas já tinham acabado e não faltava muito para regressarem as pistas de carrinhos de choque, o dragão mágico, as roulottes de cachorros e bifanas, os vendedores de tapetes, a morte de outros inocentes.

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