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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

16
Dez17

Um País a Céu Aberto

Bruno Vieira Amaral

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Convidado a apresentar um livro em que o autor cita abundante e justificadamente, permitam-me que comece esta apresentação com uma citação longa e, na minha humilde opinião, justificadíssima. Diz assim: “O segundo tipo de território que está a arder, em particular neste ano de 2005, é o território das matas periurbanas, características dos distritos mais feios e mais destruídos do país: os do litoral centro e norte. Os citadinos podem ver esse território nas imagens da televisão, a arder por detrás dos bombeiros exaustos e das mulheres desesperadas que gritam «Valha-me Nossa Senhora!» é o território das casas espalhadas por todas as encostas e vales, uma aqui, outra acolá, encostadas umas às outras sem espaço para passar um autotanque, separadas por caminhos serpenteantes que ficaram em parte por alcatroar, é o território das oficinas no meio de matos de restolho sujo de óleo, montanhas de papel amarelecido ao sol, garrafas de plástico rebentadas. É o território dos armazéns mais ou menos ilegais, cheios de materiais de obra, roupas, mobiliário, coisas de pirotecnia, encostados a casas ou escondidos nos eucaliptais, o territórios dos parques de sucata entre pinheiros, rodeados de charcos de óleo, poças de gasolina, garrafas de gás, o território dos lugares que nem aldeias são, debruadas a lixeiras, paletes de madeira a apodrecer, bermas atafulhadas de papel velho, embalagens, ervas secas. É o território que os citadinos, leitores de jornais, jornalistas, ministros, nunca vêem porque só andam nas auto-estradas, o território onde, à beira de cada estradeca, no sopé de cada encosta, convenientemente escondidas dos olhares pelas silvas e pelos tufos espessos de arbustos, há milhares – literalmente milhares – de lixeiras clandestinas, mobília velha, garrafas de plástico, madeiras de obras (é verdade – embora poucos o saibam: o campo, em Portugal, é muito mais sujo que as cidades).” Paulo Varela Gomes, Ouro e Cinza.

 

Deixo-vos aqui outra citação, esta igualmente longa, mas menos justificada, visto que o autor do texto é a pessoa que agora vos fala. Está no romance que publiquei este ano:

 

“A fim de nos afastarmos da morte de João Jorge, decidimos aceitar o convite de uns amigos para passar um fim-de-semana fora. Vivem numa povoação perto de Torres Vedras, um pouco isolados, sitiados pela paisagem de moinhos antigos, modernas hélices de produção de energia eólica, topos brancos piramidais de tendas instaladas em quintas onde os noivos da cidade vêm casar-se. De cada vez que vou para aqueles lados a hibridez da paisagem causa-me um certo desconforto. Para onde quer que se olhe há um ar de abandono industrial, mesmo nas fábricas em actividade e, paradoxalmente, na paisagem natural, um tanto incompleta, um estaleiro de obras da natureza, com as suas elevações semelhantes a esboços de montanhas, os sucessivos montes como uma cordilheira abandonada a meio por um deus impaciente. Há uns anos fui coagido pela empresa onde trabalhava a participar num desses eventos destinados a fomentar o espírito de equipa e a pró-actividade, um rally paper precisamente nos arredores de Torres Vedras. Passámos por lugarejos, trilhos alagados, canaviais de uma exuberância selvagem e, a par desta respiração verde assobiada por tentilhões e andorinhas, havia pausas de ferro e de cimento, os carris da linha do Oeste, os postes de alta tensão coroados por ninhos de cegonha que, naquela altura do ano não se viam, um viaduto sobrenatural, um aglomerado de vivendas, arrecadações de madeira e oficinas com cheiro a tinta e óleo de motor, um conjunto tão irregular que, em vez de pensado e construído, parecia ter sido ali despejado. Repousámos debaixo do viaduto de dimensões fenomenais. À nossa volta, dominava aquela espécie de vegetação múltipla e indecisa, o lugar ideal para se ocultar um cadáver. Imaginei aquele local dali a milhares de anos, se a construção humana subsistisse. Os pilares gigantescos em contraste com o viço daninho, espontâneo, lá em baixo. Imaginei que aquelas obras tivessem sido planeadas para um futuro que já não viveremos, sonhadas pela mente de um engenheiro sentimental, leitor de ficção científica. Eis a alarmante paisagem do Oeste: um aspecto provisório ou abandonado, de beira de estrada, onde tudo, até a natureza, é desmontável, precário, alcatrão e mata, silos desactivados, restaurantes desproporcionais onde aos fins-de-semana se servem buffets e se sorteiam Ferraris usados, vendas de loiça sanitária e stands de carros em segunda mão, produtores de melão e batata a venderem directamente o produto aos consumidores. Nada disto se via da casa dos meus amigos. Só a paisagem era a mesma, indecisa, incompleta, híbrida.”

 

Nas páginas iniciais desta Volta a Portugal, Álvaro Domingues expõe-nos ao pensamento de António Ferro, homem que não queria que vissem a bela fealdade do nosso país, a que se alude nos excertos que li. Na Cartilha da Terra Portuguesa, o propagandista do Estado Novo queria dar a conhecer aos turistas os “mais belos panoramas, monumentos principais, festas típicas, hotéis ou pousadas, as próprias especialidades culinárias.” Mas, mais do que informações úteis, a cartilha devia ser um breviário destinado a “todos os devotos da nossa Pátria”, desejosos de se iniciarem no catecismo da “sua Beleza”, com letra maiúscula. Portugal como religião e santuário. Em Vida e Arte do Povo Português, Ferro, embriagado de lirismo, cantava os “jardins onde a nossa alma colhe flores” e as “planícies onde o sonho galopa, onde o silêncio mora.” Neste país bucólico e sagrado, “casa de Deus”, vive o povo que “trabalha, sofre, ama e canta”. Mas o verdadeiro sofrimento, a miséria, a pobreza e os conflitos não cabiam neste quadro singelo de honrada e humilde portugalidade.

 

Na Visão História, o jornalista Pedro Caldeira Rodrigues descreve a origem e intenções desta corrente país-realista.

“A nova elite política, católica, conservadora, militarista e nacionalista, almejava expurgar a «desordem republicana» através de um novo figurino de emoções e referências provenientes da pureza campestre, em oposição à cidade impura, cosmopolita, anárquica. […]O campo, bucólico, hierárquico, conservador, opunha-se à cidade, proletária, caótica, maçónica, impura. O meio rural passava a ser sinónimo de autenticidade, o espaço urbano um lugar degenerado e transgressor.”

 

Inspirados pelo nacionalismo francês de Charles Maurras, os conservadores portugueses também quiseram criar – e criaram – o seu próprio país real em oposição ao país legal, ao país das instituições e do poder central concentrado em Lisboa. Ganhava finalmente contornos políticos a tendência de opor o campo à cidade, tendência tão velha que remontava a tempos bíblicos, mas que o Romantismo, com o seu culto da paisagem como eixo da identidade nacional, recuperou e popularizou. Em Almeida Garrett, Júlio Dinis, Fialho de Almeida e até no bom Eça, a cidade é impura, fétida, decadente e caótica, e é no campo, ordenado, puro, autêntico e saudável, que o homem pode encontrar a cura para a doença da civilização. Como se lê no livro O Crime em Lisboa no século XIX: “A cidade emerge como um espaço desorganizado, caótico e de difícil controlo e, por isso, propício à prática de ilegalidades e do crime, enquanto os espaços rurais são percepcionados como locais onde se desenvolvem modos de vida mais harmoniosos, simples, equilibrados e salutares, permitindo assim o afastamento de problemas sociais, como a criminalidade.”

Em Volta a Portugal, lê-se a certa altura: “De tanto martelado o assunto, o mito e a ficção tornaram-se mais presentes do que a realidade.” É caso para dizer que o país real alojou-se de onde é mais difícil extirpá-lo: não da realidade, mas da imaginação. O mito enraizou-se no imaginário colectivo da nação. Ainda há trinta anos, o Portugal ensinado na escola primária era esse país imobilizado, pitoresco, de casinhas típicas, trajes tradicionais e gastronomia regional, de alfarrobas a secar nos telhados dos Algarves, dos socalcos vindimados do Douro, dos pastores da serra nevada e dos campinos da lezíria, dos moliceiros e dos rabelos. Hoje, mantém-se vivo nos programas de domingo à tarde, com forró das beiras e barrigas de freiras, cavacas e cavaquinhos, adufes e marafonas, vira que já não vira e torna a virar, nas eleições das aldeias mais portuguesas de Portugal e do mundo e nos panfletos turísticos assinados já não com mão de ferro, mas com a mão de veludo dos estrategas e dos marqueteiros, criadores de Allgarves e South Bays, dispostos a vender Portugal como paraíso intocado, reserva espiritual e natural onde ainda se criam portugueses – seja para consumo interno ou para exportação – e destino prime entre os destinos low-cost.

 

É mais do que óbvio que o país real – quer na versão de António Ferro e do Estado Novo, quer na versão moderna do país que está na moda – é menos real do que parece. A realidade na expressão “país real” não é intrínseca ao país que alegadamente descreve. Ou é tão intrínseca como o conceito de exotismo é intrínseco aos países e regiões ao qual é aplicado. “Reality lies in the eye of the beholder”, que é como quem diz, “quem imaginário ama, real lhe parece”, como na história do célebre Cavaleiro da Triste Figura. Por exemplo, a paisagem é sempre mais ordenada nos discursos sobre a paisagem do que na própria realidade. Aliás, para isso mesmo serve a linguagem, para ordenar a realidade que se nos apresenta caótica. O conjunto de coisas – práticas, objectos, tradições – que constituem essa realidade é escolhido a dedo, quando não criado de raiz: romarias, doçarias, monumentos, castelos, pelourinhos, ranchos folclóricos, centros históricos e ar puro.

 

A narrativa aguenta-se até o verdadeiro país real irromper, sem pedir licença, no quotidiano televisivo das desgraças. Nesse momento, a ilusão do país de sucesso desfaz-se em pó e cinzas e o país real passa a ser o dos cem mortos em incêndios, do desordenamento do território, da desertificação do interior, do abandono e do desleixo, dos Palitos e dos eucaliptos, o país envelhecido, tombado para o litoral, sem futuro e sem esperança, à espera da morte natural e anunciada. Então percebemos que o campo inculcado na nossa imaginação já só existe em pequenas unidades geríveis e rentáveis, sejam de turismo rural ou do agro-negócio, e só interessa conservar o que à volta contribua para a ilusão precária (não é preciso mais porque os turistas não se demoram) de que aquilo não é apenas um cenário.

 

Mas entre as duas imagens do país real, a do segredo mais bem escondido da Europa e das vergonhas mais mal escondidas do mundo, há um, por assim dizer, terceiro país real que permanece no ângulo morto e não cabe quer nos discursos triunfais, quer nos discursos apocalípticos. Um país que não encaixa em nenhum discurso de ordenamento do pensamento sobre o território. Neste país, certas construções humanas parecem espontâneas como ervas daninhas, tão depressa ferem a paisagem como são assimiladas por esta, proporcionando imagens que vão do kitsch ao surrealismo. Este é o país embargado e incompleto como uma ideia que se teve mas que não se pôde concretizar. Prospera no espaço de transição entre o campo e a cidade, entre o passado e a modernidade, entre o autêntico e o sofisticado (ambos falsos), entre o natural e o artificial. É narrado em parte pelas rotundas monumentais que sabotam a própria dignidade a que almejam, construídas como símbolos do progresso e que acabam como prova incriminatória do nosso atraso.

 

Este Portugal não cabe nos planos estratégicos para o interior, nem nos rios de dinheiro que desaguam nas áreas metropolitanas. Imune a programas Polis e a operações de cosmética, é um país a meio caminho, terra de ninguém onde o campo se rarefaz e a cidade ainda está por se materializar, povoado por antigos aldeões e aspirantes a citadinos que transportam as suas memórias do campo para o novo território de cimento e alcatrão criando um híbrido que provoca dissonâncias cognitivas, autênticos rasgões na realidade, como outdoors chineses nas estradas secundárias do Ribatejo.

 

Resistente a todos os esforços de domesticação, impróprio para venda, consumo e promoção, este é o país que gostaríamos de esconder no quarto das arrumações quando recebemos visitas, mas que tem o inconveniente de ser um a céu aberto. Esse país não pode ser escalado, nem surfado, tem muitos buracos que não servem para golfe e as águas que por ele correm são tudo menos terapêuticas. É um gigantesco baldio onde as autoridades se esqueceram de pôr o aviso: “é proibido vazar entulho”.

 

Álvaro Domingues conhece-o bem porque escreve: “Entre as aldeias típicas e os centros históricos”, cujo denominador comum é o passado extraordinário e a afirmação de supostas genuinidades, sobram territórios extensos e paisagens sem identidade física, sem memória. Paisagens ordinárias, amnésicas ou genéricas como os medicamentos sem marca.” Mas são essas paisagens que pedem reflexão, que imploram, no seu abandono, por um discurso. O olhar de Álvaro Domingues, visível nas fotografias que não apenas ilustram o livro, como são a sua essência, é já um discurso sobre esses não-lugares naturais que constituem grande parte do território português.

 

Por vezes, as suas legendas lacónicas e motejos subtis soam-nos a sarcasmo, ao divertimento impudico do citadino que se delicia com os pitorescos cartazes autárquicos, com a toponimia ambígua ou os erros ortográficos nos menus. Mas tanta e tão reiterada atenção ao feio, ao invulgar, ao inesperado, pressupõe uma reflexão, uma educação, para não dizer uma filosofia, do olhar, e um sentimento que poderá não ser amor, mas denuncia encanto. Ao ver as imagens deste livro, lembrei-de de imediato dos dois textos que citei no início, porque foi como que um reencontro com um país que conheço, reconheço e me fascina. O país que, no seu estado de desenvolvimento selvagem, resultado de megalomanias, incúria, falta de verbas e crises, resiste a ser integrado no grande parque de diversões e de actividades de lazer ou o centro de dia de reformados nórdicos que parece ser o único futuro viável para Portugal. Este terceiro país não pode ser levado à Unesco para aprovação e saudação, não é fado, nem cante, nem chocalho, nem bonequinhos de Estremoz, não é praia, nem resorts de luxo na costa alentejana, nem hotéis de charme no interior ressequido.

 

Álvaro Domingues, geógrafo (e veja-se como o seu olhar quase sempre evita a presença humana e quase nunca os vestígios que esta semeia ou com que polui a paisagem) assume-se como cronista vagabundo deste país de tanques de pedra e caravelas de gesso, de blocos erráticos e interrompidos, de santinhas e moinhos de vento, de azulejos e castelos de reis Ghob, de cemitérios de sanitas e de serras pontuadas de palmeiras. Tem o olhar treinado para o híbrido, para os painéis fotovoltaicos ao lado de hortas visigóticas, as antenas parabólicas que vigiam rebanhos de cabras semi-urbanas, o xisto moderno e o alumínio tradicional da infatigável marquise, o tijolo nu encimado por telha verde, quase-gótica. Imagino-o a varrer a paisagem à procura não da harmonia e do enquadramento perfeito, mas do erro que ela inevitavelmente terá. E esse erro é que é sublime. Álvaro Domingues cita Edmund Burke: “tudo o que suscita de alguma maneira as ideias de dor e perigo, isto é, tudo que de alguma forma é terrível, tudo o que diz respeito a objectos terríveis ou age de forma análoga ao terror, isto é, capaz de produzir a mais forte emoção que o espírito seja capaz de experimentar.”

 

Com a banalização da paisagem, antigamente matéria de estudo para o espírito cultivado e hoje cenário para ser fotografado e partilhado aos pontapés, e o embaratecimento do sublime, só os erros que o olhar de Álvaro Domingues tão bem capta parecem ser capazes de emocionar: o espírito experimenta o terror sugerido por certas sombras ominosas dos quadros de Chirico, pelos seus objectos incongruentes, as suas formas ameaçadoras. Talvez porque não haja nada que inspire mais terror do que o vazio, e estas fotografias estão cheias desse vazio, de sentido, de gente, de memória, de palavras. Ao mesmo tempo, estão repletas de qualquer coisa profundamente nossa, como se representassem a parte da nossa identidade para a qual ainda não encontrámos as palavras. António Ferro falava dos jardins onde a alma colhe flores, mas não sabia que quase toda a nossa alma é baldio e que aqui só se colhe ferro-velho e azulejos partidos.

 

Há meses, em viagem por Terras de Basto, vi à porta de uma vivenda moderna um horrível anjinho em pedra com um Audi em fundo. Emocionou-me a fealdade evidente, a piedade vulgar e a terrível solidão do quadro, numa mistura atroz e sublime de recursos financeiros, mau gosto e sentir genuíno. O nosso sentimento religioso, aliás, raramente subiu a esferas mais elevadas, como se vê nesse lugar de devoção tétrica e comércio piedoso que é Fátima. Se Portugal tem de ser alguma religião, há-de ser esta, de anjinhos terríveis e silos que parecem catedrais, cujo breviário o irmão Álvaro teve a caridade de nos oferecer.

 

Texto lido na apresentação do livro Volta a Portugal de Álvaro Domingues

15
Dez17

É difícil amar os outros

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Junho de 2017

 

Estávamos naquela idade em que ainda exploramos os limites do mundo, ou seja, os limites da nossa crueldade. Passou por nós um cão. Tentámos atirá-lo para uma vala. O cão fugiu. Tão grande era a nossa estupidez que não desistimos de imediato dos nossos intentos. Atraímos o cão com um chamamento amigável. Ele veio, dócil, manso, confiado nos animais que o chamavam. E, como estava escrito desde o início dos tempos, lá o atirámos para a vala com um pontapé.

Quase no final de A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera escreve o seguinte: “Logo no começo do Génesis, está escrito que Deus criou o homem para que ele reinasse sobre os pássaros, os peixes e o gado. […] Ninguém pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre todas as outras criaturas. O mais provável é que o homem tenha inventado Deus para santificar o seu poder sobre a vaca e o cavalo, poder esse que ele usurpara.” Para Kundera, a bondade do homem só se pode manifestar “em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma”, os animais. Seguindo esta lógica, também a verdadeira crueldade só se poderia manifestar quando exercida sobre os animais, aqueles que, por decreto divino ou humana soberba, temos à nossa mercê. Essa crueldade seria como que um prenúncio da (ou um treino para) crueldade sobre os seres humanos. Se somos capazes de magoar quem não nos ameaça porque não o faríamos contra aqueles que nos podem resistir? Kundera conta que, na Checoslováquia, antes de passarem aos alvos humanos, os russos organizaram campanhas de extermínio de cães com o argumento de que estes sujavam os passeios e constituíam um risco para a saúde infantil: “era preciso consolidar essa agressividade […]. Era preciso primeiro treiná-la contra um alvo provisório. Esse alvo, foram os animais.”

A violência gratuita sobre os animais como antecâmara do homicídio está presente em duas cenas da literatura que, em parte, moldaram a minha sensibilidade. Em Aparição, Carolino sente uma vertigem de poder quando mata uma galinha à pedrada. “O homem é que é Deus porque pode matar”, conclui. No livro O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar, Yukio Mishima descreve a morte de um gato às mãos de um grupo de adolescentes. “Fui eu que o matei. Posso fazer tudo, por mais terrível que seja”, pensa um dos adolescentes. Mais tarde, em cada uma das histórias, os adolescentes acabam por assassinar alguém.

Mas se a maldade dirigida contra os animais pode indiciar uma falta de misericórdia que facilmente encontra um novo alvo nos nossos semelhantes, a bondade que manifestamos em relação aos animais, por ser pura e gratuita, não se traduz necessariamente em compaixão pelos outros seres humanos. A maldade contra um animal desumaniza-nos, mas a compaixão por um animal não nos humaniza, no sentido de nos tornar mais sensíveis ao sofrimento de outros seres humanos. Aliás, aquela bondade, radical, absoluta e que não exige qualquer contrapartida, pode tornar-nos indiferentes ao sofrimento humano mais próximo de nós, em cuja avaliação está sempre envolvido um julgamento moral (por exemplo, pensarmos no que a outra pessoa terá feito para se encontrar naquela situação de sofrimento).

O argumentista Jean-Claude Carrière lembra um episódio da Revolução Francesa narrado por Restif de La Bretonne que o impressionou fortemente. Um condenado à morte é levado para o cadafalso e é seguido pelo seu cão. O homem segura o cão e pede que alguém tome conta dele. A multidão insulta-o. Os guardas impacientes tiram-lhe o cão das mãos e executam o homem na guilhotina. O cão lambe o sangue do dono que escorre pelo chão. Os guardas matam o cão à facada e a multidão grita: “Assassinos! Que mal é que o cãozinho vos fez?” A multidão, que momentos antes tinha exigido e festejado a morte de um homem (muito provavelmente um criminoso), enche-se de compaixão pelo pobre animal. Há uns tempos, numa esplanada, enquanto comia um suculento pastel de Chaves, aproximou-se de mim, silenciosamente, uma cadela. Não ganiu, não abanou a cauda, não ladrou. Cravou em mim uns olhos cheios de palavras que não podia dizer. Uns olhos humaníssimos que suplicavam o pão. Senti por aquele animal o que nunca sinto quando aquele homem, habitualmente à porta do supermercado onde faço as compras, me pede uns trocos para comer qualquer coisa porque não consigo evitar julgar o meu semelhante. Se, de certa forma, a crueldade contra os animais é mais censurável, a bondade que lhes dirigimos também é menos louvável. É mais fácil amar um cão que sofre do que um homem que nos pode ofender.

Regresso ao cão do início da crónica. Saiu rapidamente da vala. Terá esquecido o episódio e terá entregado novamente a sua confiança a outros humanos dela merecedores. Eu é que nunca mais o esqueci e nunca mais voltei a confiar em mim. Queria sentir por pessoas que magoei o que sinto por aquele cão. E não consigo. É difícil amar os outros.

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