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Abr09
A não-vida de Roberto Saviano
Bruno Vieira Amaral
“Ya no soy un hombre, soy un equipo”.
Roberto Saviano foi acusado de plágio mas essa não deve ser a maior das suas preocupações. Quando o seu livro, Gomorra, se tornou num sucesso de vendas e Saviano se transformou numa figura pública, os clãs camorristas decretaram-lhe a pena de morte. Demasiada informação a circular por demasiadas mãos. Apesar de movimentar milhões de euros em negócios ilícitos e lícitos, a Camorra (a máfia napolitana) actua na obscuridade, prospera na sombra. É um mercado à parte, com regras privadas e constantes mutações nas hierarquias. É o capitalismo selvagem levado ao extremo. A eliminação da concorrência não se limita ao sentido figurativo. As fusões são quase sempre assinadas com sangue. E é apenas quando as guerras de clãs eclodem, quando já não é possível ignorar os cadáveres que dia após dia aparecem nas ruas de Nápoles e nas lixeiras dos arredores, que a comunicação social se dá conta de que o “Sistema” existe. Terminada a limpeza, redifinidos os equilíbrios de poder, os jornalistas regressam às redacções e o “Sistema” ao “business as usual”. Roberto Saviano não se limitou a descrever o clímax das guerras. Seria o equivalente a reduzir “O Padrinho” ao momento em que Michael Corleone ordena a execução dos rivais. Saviano descreve a vocação tentacular da Camorra, a sua capacidade para se dedicar a negócios tão distintos como a distribuição de lacticínios e o tráfico de armas, passando pelos clássicos da corrupção autárquica: construção civil, futebol e recolha de lixo. É fascinante perceber como este Leviatã dependente de milhares de acções individuais se move com a harmonia de um ballet russo. O trabalho de Saviano é uma notável peça jornalística e literária (apesar das excessivas metáforas orgânicas) sobre a economia, a antropologia (ler o capítulo sobre as mulheres da Camorra), a história (Kalashnikov) e a psicologia dos camorristas. Homens que, a dada altura, vivem em bunkers ou em casas sem condições, não desfrutando da riqueza que administram, vendo o seu poder reduzido ao poder de iniciar um banho de sangue. Assim é a vida de Saviano. Com uma escolta permanente, longe da família e dos amigos, não podendo gozar da fama e do reconhecimento que Gomorra lhe trouxe. Mesmo que não venha a ser morto, Saviano já foi condenado a viver com o medo de uma morte iminente, já foi condenado a não ter uma vida normal, já foi condenado a uma não-vida. Tal como muitos daqueles que Saviano, com tanta coragem, denunciou.
