Susan
Não aprendemos nada com a história do patinho feio, nem sequer com a do pós-moderno Shrek. Mas os produtores de televisão conhecem-nas bem. Quando Susan Boyle subiu ao palco tinha todo o ar de feia aberração de feira. Quando começou a cantar foi como se os anjos tivessem tido pena de nós. Os programas televisivos de talentos precisam destas narrativas: meninas pobres, solteironas feias, rapazes introvertidos. O underdog que triunfa. É o sal dramático que tempera o que de outro modo seria um insípido desfile de gente com e sem talento. Quanto mais feia, mais desajeitada, mais virgem, melhor para a produção. Susan Boyle foi apresentada sem qualquer sinal exterior de talento para que a surpresa do espectador fosse maior. "Play them like an organ", dizia Hitchcock. É isto que as televisões nos vendem: o Zé Maria de Barrancos, a Susan de um vilarejo escocês, a Floribella desgraçada, o canalizador que interroga Obama. A ilusão do autêntico. A ilusão do real. A televisão corrige as desigualdades sociais e os desequilíbrios estéticos. A televisão promove a meritocracia. Dá voz a quem não tem voz. Dá voz a quem não tem cara que se apresente. Viva a televisão! Susan não tem culpa de nada disto. Não tem culpa de ser o fascinante oxímoro que é: uma voz de anjo numa cara que não lembra ao diabo.
