Anatole
Eu nem queria acreditar que à minha frente estava Anatole Melquiades Ovchinikov. A minha geração, como é dever de todas as gerações cosmopolitas, odiava profundamente a geração precedente que, como todas as gerações latinas, se desfazia em ódios intestinos. Coincidiam ambas as gerações no ódio ao surrealismo, ao ensopado de borrego e a essa figura mítica das letras beirãs que era Anatole Melquiades Ovchinikov cujo pseudónimo, Baltazar Rubirosa von Offenbach, nunca teve grande sucesso e não teria ficado para a história não se tivesse dado o caso de a Segurança Social lhe ter atribuído a reforma de Anatole. A Segurança Social desculpou-se com o programa informático obsoleto que também atribuíra uma pensão vitalícia, se é que o termo pode ser aplicado com rigor neste contexto, a Alexandre Herculano. O valor não era pago por cheque nem por transferência bancária. Na primeira 5ª feira de cada mês, um funcionário deixava um saco do Modelo com o dinheiro lá dentro perto de um cruzamento na EN214. Os pormenores desta ocorrência podem ser consultados na "Antologia de Poesia Futurista de Idanha-a-Nova", prefaciada por Amadis Lobo Antunes e recentemente traduzida para russo por Igor Belanov e Svetlana Belanova (ISBN: 900-100-320-89-1). Anatole era o que hoje chamaríamos, algo neo-realisticamente, de desempregado. Isso reflectiu-se na sua obra (vide a qualidade do papel utilizado) e, de forma espectacular, no seu índice de massa corporal. Quando o vi naquela noite, Anatole já estava muito melhor. De acordo com informações recentes, já não vivia da caridade. Tinha o ar superior dos artistas desalinhados das correntes do seu tempo. Era o único romancista que se podia orgulhar de não ter integrado nem o Grupo dos 9 (curiosamente composto por 11 elementos), nem as Brigadas Vermelhas (um grupo de neo-nazis admiradores de Pound e de Effenberg). Desprezava críticos literários e acusava empregados de mesa que serviam ao balcão de falta de personalidade jurídica. Aceitou o prémio Cidade da Moita mas recusou-o assim que descobriu que Moita não era cidade. Ficou com o dinheiro e prometeu devolvê-lo no dia em que Alhos Vedros fosse declarada capital. Por tudo isto, quando vi Anatole Melquiades Ovchinikov, sabia que estava perante o grande génio do nosso tempo, um indivualista radical, um adúltero compulsivo (na verdade, o adultério era uma "cosa mentale", visto que Anatole era solteiro) e um patriota que defecou sobre a bandeira quando a selecção de hóquei em patins acabou em 4º lugar no JO de Barcelona. Não consegui dirigir-lhe a palavra, não me achei digno de tal honra, mas ao passar a meio metro do homem, murmurei um dos seus anti-poemas à la Nicanor Parra: "O fumo sai das prisões..."
