Música Clássica e Kubrick
Um dos meus projectos de vida é ouvir a obra completa de Pierre Boulez mas deus sabe como é difícil encontrar toques polifónicos que lhe façam justiça. Quando os meus amigos falam sobre música clássica eu fico repentinamente cabisbaixo, perco o apetite, o gosto pela vida, pelas mulheres e imagino que ao meu lado está o Jorge Jesus, com o seu penteado táctico, a insistir entre caralhos e foda-ses que o futebol é composto por cinco momentos e que foi ele que descobriu o quinto. Se a conversa fica por Bach eu ainda acompanho, porque há muitos anúncios com músicas dele, porque eu sei que o acrónimo bsw não significa bondage swingers e porque sempre que alguém fala de “A Paixão segundo São Mateus” eu exibo uma expressão facial seguida de um “Sublime!” que convence toda a gente da minha erudição, como se ouvisse Bach desde o berço. Se metem Bartók na conversa eu eclipso-me ou em alternativa dedico-me a descascar amendoins como se à minha espera não estivessem um ou dois amendoins mas a revelação do mistério da existência humana. Eu conheço aquela história segundo a qual “O Outono do Patriarca” tem a mesma estrutura dos concertos para piano de Bartók, mas lamentavelmente esse pedaço de gloriosa criação musical não me inspirou a escrever nenhuma obra digna do Prémio Nobel. Aliás, e não quero sugerir um nexo de causalidade, fui acometido de uma violenta reacção gastro-intestinal, o que ainda não valeu um Nobel a ninguém (o que acontecerá no dia em que o entregarem a Philip Roth). A minha aproximação à música clássica deve-se em grande parte aos filmes que vejo e aos cd’s da Naxos (não é bonita a ideia de centenas de cross-dressers a trabalharem para a Naxos?). A utilização de música clássica nos filmes é quase sempre deprimente, especialmente quando sobreposta à imagem do Willem Defoe a morrer em câmara lenta e com impecável sentido estético na selva do Vietname. Isto para não falar da xaropada pseudo-místico-futurista, pré-new-age com ácidos, que é o 2001. A obra de Kubrick enerva-me e não prometo que não assassino o próximo gajo que, para o elogiar, me fale em “geometria” e “cerebralidade”. Há dias, revi o Eyes Wide Shut, que também tem muita música clássica, que aliás é um filme com muita “classe”, muito “arrumadinho”, e não pude deixar de me rir com aquela cena inicial da boazona pedrada no escritório do Sidney Pollack e parei de ver o filme quando Tom Cruise fuma um charro, a cena mais inverosímil da história do cinema desde que o Danny Glover sobreviveu a uma bomba na sanita. Salvam-se a cena em que o traseiro de Nicole Kidman é filmado num enquadramento digno de Greta Garbo no Queen Christina e a outra em que Nicole limpa o pipi depois de fazer xixi. Meus amigos, isto não é de realizador genial, isto são os últimos desejos de um moribundo que, reconheça-se, teve a generosidade de os partilhar com todos os que apreciam carne dos antípodas.
