14
Jun09
Clássico moderno
Bruno Vieira Amaral

Um coelhinho de estimação numa panela de água a ferver. Uma mulher, sentada no chão, acende e apaga a luz do candeeiro. Adrian Lyne não faz parte do cânone mas aquelas duas imagens impuseram-se no imaginário social e no património cinéfilo com a mesma força. A primeira tem um antecedente célebre: a cena da cabeça de cavalo em “O Padrinho”. Com o mesmo recurso à violência indirecta, cumprem ambas uma função idêntica: sinalizam o ponto até onde as personagens estão dispostas a ir para conseguir aquilo que querem. A cena de “O Padrinho” não é filmada como uma ameaça. Está construída para que a cabeça do cavalo seja mais um argumento entre homens de negócios. Há o choque da descoberta mas toda a sequência, desde a postura legalista de Robert Duvall à música, realça o “strictly business”. No filme de Lyne, o espectador percebe o que Anne Archer vai encontrar mesmo antes de ela levantar a tampa. O elemento de estranha perturbação que é a panela ao lume na casa vazia é puro cinema, pura tensão cinematográfica, narrativa visual sem enchumaços literários. O mesmo acontece com a cena em que a abandonada Glenn Close acende e apaga a luz do candeeiro, ao som da Madame Butterfly que o amante não quis ir ver com ela. Não há palavras mas nada pode ser acrescentado à descrição psicológica e do estado emocional da protagonista. Uma vez mais, puro cinema.
O impacto social de Atracção Fatal deve quase tudo à polémica em relação à vilã. Afinal, Glenn Close é uma mulher independente, que toma as rédeas da sedução e que parece ter tudo controlado. A personagem, desde o primeiro momento, é apresentada como agressiva e dominadora. O aproveitamento anti-maternal que faz da gravidez ainda a torna mais antipática aos olhos do espectador. Uma amazona que contrasta com a ternura que a personagem de Anne Archer emana. Mulher e mãe perfeita. No meio, há o simpático Michael Douglas que é logo desculpado pela facadinha. Ao contrário do que afirmou a produtora do filme, o filme não passa a mensagem de que todas as acções têm as suas consequências. Se há alguma mensagem é a seguinte: “trair pode meter-vos num monte de sarilhos se vos calhar uma louca”. Mas como ninguém vê o “Tubarão” para fazer uma tese em Biologia Marinha, Atracção Fatal também não pode ser avaliado como um ensaio sociológico, nem pode ser analisado fora das convenções do “thriller”. É verdade que, apesar de alguns pontos em comum, as infidelidades são mais frequentes que os ataques de tubarões. Mas essa proximidade com a vida real não nos deve desviar da leitura cinematográfica. O filme joga com clichés (acontece em todos os filmes de género e se assim não fosse não haveria o arquétipo da femme fatale), manipula os medos sociais dos espectadores e reforça percepcões estereotipadas do papel da mulher em vez de as contrariar, mas isso é sociologia. A articulação perfeita entre momentos de tensão e momentos de alívio até ao clímax final (em que a mulher-mãe mata a mulher-puta, lá está a sociologia), em que Lyne homenageia “Les diaboliques” de Clouzot, faz de Atracção Fatal um thriller irrepreensível. Vinte e dois anos depois, o filme ainda funciona com a mesma intensidade. Mais contido na sua tendência “publicitária”, Lyne realizou um clássico que sobreviverá aos seus detractores sociológicos.
O impacto social de Atracção Fatal deve quase tudo à polémica em relação à vilã. Afinal, Glenn Close é uma mulher independente, que toma as rédeas da sedução e que parece ter tudo controlado. A personagem, desde o primeiro momento, é apresentada como agressiva e dominadora. O aproveitamento anti-maternal que faz da gravidez ainda a torna mais antipática aos olhos do espectador. Uma amazona que contrasta com a ternura que a personagem de Anne Archer emana. Mulher e mãe perfeita. No meio, há o simpático Michael Douglas que é logo desculpado pela facadinha. Ao contrário do que afirmou a produtora do filme, o filme não passa a mensagem de que todas as acções têm as suas consequências. Se há alguma mensagem é a seguinte: “trair pode meter-vos num monte de sarilhos se vos calhar uma louca”. Mas como ninguém vê o “Tubarão” para fazer uma tese em Biologia Marinha, Atracção Fatal também não pode ser avaliado como um ensaio sociológico, nem pode ser analisado fora das convenções do “thriller”. É verdade que, apesar de alguns pontos em comum, as infidelidades são mais frequentes que os ataques de tubarões. Mas essa proximidade com a vida real não nos deve desviar da leitura cinematográfica. O filme joga com clichés (acontece em todos os filmes de género e se assim não fosse não haveria o arquétipo da femme fatale), manipula os medos sociais dos espectadores e reforça percepcões estereotipadas do papel da mulher em vez de as contrariar, mas isso é sociologia. A articulação perfeita entre momentos de tensão e momentos de alívio até ao clímax final (em que a mulher-mãe mata a mulher-puta, lá está a sociologia), em que Lyne homenageia “Les diaboliques” de Clouzot, faz de Atracção Fatal um thriller irrepreensível. Vinte e dois anos depois, o filme ainda funciona com a mesma intensidade. Mais contido na sua tendência “publicitária”, Lyne realizou um clássico que sobreviverá aos seus detractores sociológicos.
