Lembrando a visita de Bento XVI ao Brasil

O Brasil recebeu o Papa Bento XVI com uma gentileza: 10 graus. O sangue bávaro terá agradecido, a não ser que Roma já lhe seja mais espessa. Os católicos do (por enquanto) país mais católico do mundo precisavam de uma visita papal. Mas Bento XVI não é João Paulo II. O polaco tinha “star quality”, coisa que o ex-Ratzinger nunca teve nem terá. Os brasileiros que esperam muito da visita deviam ser avisados: Bento XVI não é banda para grandes estádios. Onde ele pode causar comoção é em universidades alemãs, com citações de sábios de tempos em que no Brasil só se falava tupi. João Paulo II viajava tanto que eu pensava que Alitalia era o apelido dele. Bento XVI, que tem aquela cara de quem não gostou e voz de quem não comeu, deve achar as viagens uma maçada, um desperdício de tempo que deveria ser consagrado à leitura ou, em lapso pagão, a sorrateiros banhos de sol em Castel Gandolfo. Bento XVI vai encontrar um Brasil onde o número de católicos tem vindo a diminuir e o número de evangélicos não pára de aumentar. É a vitamina mediática a par de uma capacidade de responder às necessidades terrenas dos crentes que explica o crescimento evangélico. Os EUA também apostaram forte na colonização religiosa do Brasil. Não se pense que o protestantismo triunfante no Brasil é feito com missionários saídos dos quadros de Ford Maddox Brown ou de Grant Wood. Se os primeiros protestantes liam a Bíblia, os carismáticos berram-na – é o chamado cristianismo pulmonar. Contra os cristãos de trem eléctrico, contra os televendedores da salvação, não há erudição pontifícia que valha.
