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Não tenho nada contra o ponto de exclamação. Nem a favor. Se algum passar por mim na rua, cumprimento-o. Se me pedir um cigarro, não dou. Mas sou assim com toda a gente e não abro excepções a sinais de pontuação. O movimento contra o ponto de exclamação, iniciado aqui, confundiu-me. Um movimento que se propõe acabar com alguma coisa parece-me de natureza imperativa. Não se sugere o uso moderado do ponto de exclamação, mas o seu extermínio, porque fere a sensibilidade, porque grita, porque é próprio de pessoas sem maneiras, porque é histérico. Grita-se, baixinho, contra o ponto de exclamação: eis o paradoxo! E com tantos caracteres dispensados à excomunhão pública do ponto de exclamação, creio que há por ali qualquer coisa mal resolvida. É o mesmo que estar sempre a falar mal da ex-mulher. Eu desconfio destes ódios. São barquinhos frágeis que seguem obsessivamente na mesma direcção, desfraldam a bandeira do ressentimento mas o que os mantém à superfície é a qualidade do casco e esse é feito de amor. Um amor não correspondido. Todos nós que já quisemos mandar alguém à merda sabemos como dói precisar de um ponto de exclamação e, na sua vez, aparecerem umas reticências nervosas, engasgadas, pusilânimes. Engolimos as reticências, que parecem comprimidinhos, e ficamos com o ponto de exclamação atravessado na garganta. Se esta, ou outra que se lhe assemelhe, é a razão do despeito, sugiro que façam as pazes com o ponto de exclamação. Ofereçam-lhe um ramo de pontos de interrogação, uma caixinha de vírgulas. Se ele não aceitar, e não são poucas as razões para estar magoado convosco, mandem-no à merda e, com um pontapé bem assestado, ponham-no à frente.
