Honra o teu pai
Inferno é uma palavra vazia que só se enche de horror na noite em que ouves as balas por cima da tua cabeça, e pensas na tua mãe, mãezinha, caralho, quem me mandou vir para aqui morrer?, e rezas sabes lá a quem, e encolhes-te muito, pode ser que a morte passe e tenha piedade de um insecto e leve outro, um homem, e não é que resulta?, ali está um de miolos no chão, valente soldado, mercenário valente, e o mais triste é que eu nem sabia o nome dele, porque a primeira coisa que fazem quando chegamos é mudar-nos o nome e depois fazem de nós homens, sem nome mas homens, para combatermos como homens e morrermos como homens, mas ninguém morre como homem, morremos todos como crianças, cagados, meu filho, literalmente cagados, e quando tudo acabava, quando acabavam os tiros, quando as explosões acabavam, quando acabavam os inimigos e os companheiros acabavam, no fim de tudo acordavas, o terror aturdido de alguém que desperta de uma anestesia e olha para as pernas para ver se não lhas amputaram, e olha para os braços e tem os dois, e vê o tórax, o abdómen, está completo, graças a Deus, não lhe falta nada, um homem inteiro, coisa assombrosa é um homem pleno, e levantavas-te e andavas, saías dali recém-renascido e dois meses depois estavas na Bósnia e caminhavas por uma estrada lado a lado com os teus companheiros, os homens sem nome, e na curva da estrada viam um autocarro, abrandavam o passo, enquanto se aproximavam só se ouvia o som das botas na terra, os pulmões com um mínimo de ar, e então viam os corpos decepados, torcidos, o esgar canino, as bocas entreabertas que deixavam ver os dentes de leite escurecidos pelo sangue seco.
