Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

13
Ago10

Saramago

Bruno Vieira Amaral

Publicado no i há uns tempos

 

Terra do Pecado (1947)

 

O título deveria ser A Viúva, mas o editor alterou-o para Terra do Pecado. História dos Pecados de uma Viúva teria contentado os dois. Numa altura em que o neo-realismo dominava, Saramago ainda escrevia sobre criadas chantagistas, à boa maneira de Eça de Queiroz.

 

Manual de Pintura e Caligrafia (1977)

 

Saramago gostou tanto do livro de estreia que demorou trinta anos a regressar ao romance. Há uma personagem H. e outra M., o que se pode considerar uma crítica premonitória ao capitalismo e à alienação das grandes cadeias de lojas de roupa através da venda de blusas escandalosamente baratas.

 

Levantado do Chão (1980)

 

Um escritor comunista escrever sobre o Alentejo é tão óbvio como um “tio” escrever sobre os gelados Santini ou um militante do CDS elogiar a beleza da Ria de Aveiro. Saramago encontrou a sua voz neste romance sobre trabalhadores rurais mas poderia ter escrito, com igual sucesso, sobre operários da Lisnave.

 

Memorial do Convento (1982)

 

Não diga a ninguém que nunca leu Memorial do Convento. Há um Baltasar, uma Blimunda e um Bartolomeu, um rei megalómano com um interesse pouco cristão por freiras e um fascínio por edifícios faraónicos e um tanto inúteis. E não se esqueça: de um lado os ricos e do outro os pobres.

 

O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)

 

Quatro anos antes do centenário do nascimento de Fernando Pessoa e do célebre “tanto Pessoa já enjoa”, Saramago “matou” o heterónimo Ricardo Reis, aquele rapaz que preferia ficar de mãos dadas com Lídia (que aqui é uma empregada de hotel) em vez de trocar carícias.

 

A Jangada de Pedra (1986)

 

E se a Península Ibérica se separasse do resto do continente europeu? Se a Grécia estivesse incluída na viagem diríamos que o romance era uma resposta às preces de Angela Merkel. Mas os tempos eram outros, Portugal e Espanha acabavam de aderir à CEE.

 

História do Cerco de Lisboa (1989)

 

Meta-literatura e romance histórico num só. É também uma reflexão sobre o poder dos revisores de texto (afinal de contas, os responsáveis pela versão final do texto que está a ler neste momento), os heróis invisíveis que podem alterar o sentido da História com um simples “não”.

 

O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991)

 

Um Jesus Cristo humano, demasiado humano, um diabo simpático e um Deus insuportável. Com este romance, Saramago despertou a fúria dos católicos e ofereceu ao país um personagem inesquecível: Sousa Lara, obscuro não sei quê da cultura.

 

Ensaio sobre a Cegueira (1995)

 

A cegueira como metáfora e como factor que desencadeia o mais primitivo e brutal que a Humanidade carrega dentro de si. A única personagem que resiste à epidemia é a mulher de um médico: a burguesia é sempre privilegiada.

 

Todos os Nomes (1997)

 

Mergulho kafkiano nas trevas da burocracia. A ideia do romance surigu enquanto Saramago pequisava dados sobre a morte do seu irmão Francisco, vítima de pneumonia aos quatro anos. Se o mundo de Borges era uma biblioteca, o deste romance é uma imensa conservatória do Registo Civil.

 

A Caverna (2000)

 

Platão, olaria, centros comerciais e anti-capitalismo. O primeiro romance depois do Nobel é um livro que respira o ar de Seattle 99 e em que o escritor cede o lugar à estrela mediática do pós-comunismo, ao porta-voz de uma globalização alternativa.

 

O Homem Duplicado (2002)

 

Ao ver um filme, Tertuliano Máximo Afonso descobre um homem que é sua cópia exacta. Este é um ponto de partida que levanta profundas questões de identidade: se existe um outro eu qual dos dois tem a obrigação moral de pagar as multas de estacionamento?

 

Ensaio sobre a Lucidez (2004)

 

E se os eleitores decidissem maioritariamente votar em branco? Este exercício de desconfiança em relação à democracia representativa mostra o Saramago mais esquemático e menos interessante para o leitor que não frequente a Soeiro Pereira Gomes.

 

As Intermitências da Morte (2005)

 

“No dia seguinte ninguém morreu.” Eis aquele que é provavelmente o melhor início de sempre de um romance português. Se o movimento pendular da ceifeira se interrompesse seria muito difícil encontrar um equivalente a Sete Palmos de Terra.

 

A Viagem do Elefante (2008)

 

In illo tempore, os monarcas portugueses não ofereciam serviços Vista Alegre aos seus primos europeus. Presenteavam-nos com elefantes, bicho exótico para austríacos acostumados a vacas. Com este regresso à História, Saramago convenceu os críticos mais contumazes.

 

Caim (2009)

 

E porque Saramago nunca foi homem de consensos, a sua despedida da cena literária aconteceu com esta pequena provocação de um adolescente octogenário. O Deus Todo-Poderoso levou aqui uma valente sova, mas não se incomodou. A última palavra é sempre d’Ele e da morte sem intermitências.

2 comentários

  • Imagem de perfil

    Bruno Vieira Amaral 14.08.2010 10:10

    É um pouco assim. Em vez de romances de ideias deveriam designar-se romances de ideia, porque normalmente só têm uma.

    Mais a sério, acho que isso é válido para alguns (As intermitências, O homem duplicado, ensaio sobre a lucidez).
  • Comentar:

    CorretorEmoji

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

    Seguir

    Contactos

    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D