7700: crónicas do mundial
7700: distância, em quilómetros, que separa Lisboa do Rio de Janeiro.
Torcer pela selecção portuguesa, sendo português, é uma fatalidade desprovida de qualquer sentido estético. É como o cachorro que instintivamente procura a teta, o Bruno Alves que recreativamente procura a rótula do adversário, o Postiga a atirar a bola para qualquer lugar que não seja o “fundo das redes.” O primeiro Mundial de que me lembro, o de 86, contou com a participação mariachi de um grupo de fulanos, todos eles bons jogadores, que, segundo reza a lenda, foi assaltado por um espírito revolucionário jamais visto fora dos limites da Fenprof circa Mário Nogueira. Chegaram a treinar com as camisolas do avesso e, também de acordo com a lenda, a passar os tempos livres trocando amenidades com putas mexicanas. Por coincidência, Portugal tinha entrado nesse ano para a então CEE. Na verdade, como os nossos homens em Saltillo demonstraram, continuávamos a ser um país africano. Coleccionei com afinco as caras dos jogadores que saíam nas caricas de coca-cola. Vibrei com a vitória sobre a Inglaterra. Depois, não sei o que se passou. Portugal desapareceu e escolhi ficar com a Argentina, para sempre. Em 90, com a lesão de Pumpido a inventar um novo herói das balizas. No mundial norte-americano, de renascimento e efedrina. Em França, novamente derrotando os ingleses e caindo aos pés de uma genialidade de Bergkamp. Em 2002, sem honra nem glória. Em 2006, vítima dos implacáveis germânicos, mas deixando um rasto inesquecível com o melhor golo colectivo e o melhor golo individual do torneio (pesquisem, pesquisem). Na África do Sul, com o futebol destrambelhado de um treinador de barba e sem cabeça, só coração, ajoelhados pelo melhor futebol que se viu nesse ano, o dos alemães. Por motivos sanitários, Portugal esteve impedido de participar até 2002. Nesse ano de má memória, vi-me obrigado a um retrocesso civilizacional, sofrendo pela selecção do meu país. Depois de uma derrota com os atléticos norte-americanos que me deveria ter imunizado contra o vírus do patriotismo de hipermercado, comemorei com tal vigor a inútil goleada à Polónia que, nos festejos, destruí com uma enérgica cabeçada um candeeiro que imperava há décadas na sala dos meus sogros. Envergonho-me destas recordações, deste comportamento bárbaro e gregário, do erotismo difuso de me abraçar a estranhas no Terreiro do Paço enquanto os ecrãs gigantes exibiam a gigantesca e porcina cara do Maniche. É esse o preço a pagar pelos benefícios macro-económicos de um apuramento para o Mundial. E assim chegamos a 2014. Forçados pelo génio do Cristiano a abdicar do fervor elegante de torcer pela selecção com a camisola mais bela da história da humanidade, a prescindir do prazer refinado de comemorar um golo com a razão, a desistir da fruição de um espectáculo em que a bola se abandona com nítida volúpia aos pés de Enzo, Di María, Messi e Kun Aguero. Estarei, protocolar e patriótico, de alma e coração com os nossos, enquanto a minha razão espreitará, pelo cantinho do olho, a beleza infalível da albiceleste.
