7700: oitavos
Para muitos, entre os quais não me incluo, o mundial começa hoje. Compreendo. A primeira fase é, regra geral, um período desinteressante, quase protocolar. Adeptos entediados costumam vibrar apenas com as “surpresas”, um primarismo que o apaixonado por futebol deve evitar a todo o custo. Lembremos a surpresa que foi a Grécia em 2004. No final, só acharam graça os gregos e os que queriam estragar a festa aos anfitriões. Ou a surpresa Dinamarca, ainda hoje recordada por ter ido recuperar os jogadores às praias do Mediterrâneo. É o que diz a lenda e, em caso de dúvida, imprime-se a lenda. As restantes surpresas normalmente são protagonizadas por equipas fraquinhas que por zelo, sorte e anti-futebol conseguem surpreender uma ou duas selecções poderosas e sobranceiras. O que este mundial tem de bom é que as surpresas desta primeira fase surpreenderam pela qualidade do futebol (Costa Rica) ou, pelo menos, pela coragem (Argélia). A única equipa com propósitos exclusivamente defensivos foi o Irão, selecção treinada por um português. A outra equipa que entrou em campo com cadeados foi a Grécia, embora nesse caso a responsabilidade não caiba por inteiro ao treinador. Português, como se sabe. Apesar das limitações metereológicas, das despreocupações tácticas (toda a gente sabe que abaixo dos trópicos até os grandes tácticos ficam de tanga) e de alguma mazela patriótica, foi uma primeira fase muito digna e televisiva. O que começa hoje é outro mundial. O mundial do perde-sai, do mata-mata, do quem-marcar-ganha. Acabou o mundial gourmet, começa o mundial fast-food, emoções rápidas prontas a servir. O que também não é mau. É verdade que os oitavos-de-final proporcionam ainda embates um pouco desequilibrados, mas a tensão dos momentos decisivos pode inibir os mais fortes e jogar a favor dos underdogs. Não são jogos completamente esquecíveis. Lembro-me de vários: um Alemanha-Marrocos em 86; o Brasil-Argentina de 90, com o golo de Caniggia a passe de Maradona; ainda nesse ano, os quatro golos da Checoslováquia à Costa Rica de Conejo, incluindo um hat-trick de Skuhravy; a vitória da Irlanda sobre a Roménia nos penalties; em 94, a cotovelada de Leonardo a Tab Ramos, num equilibrado Brasil-EUA, ou a grande exibição da Roménia de Hagi contra a Argentina Maradona-less; em 98, a reedição de mais uma batalha entre argentinos e ingleses, com um extraordinário golo de Owen e um vermelho idiota a Beckham; França a eliminar o Paraguai do nosso Gamarra após prolongamento, com um golo daquele sujeito com ar de professor primário da Provença; do mundial de 2002 – o pior de sempre, esqueçam lá a lenda do mundial 90 – só me recordo vagamente da Coreia a assaltar Itália; em 2006 estávamos lá e fizemos história contra a Holanda, num jogo com tantas agressões que deveria ter sido disputado Ciudad Juárez, mas o que perdurará na memória é o golo de Maxi Rodriguez contra o México; em 2010, também estávamos lá e só fomos capazes de repetir as palavras do capitão Ronaldo “Carlos, assim não vamos lá”. Que estes oitavos que hoje começam com uma espécie de mini-Copa América nos ofereçam momentos assim.
- o que fica do que passou:
a) o árbitro japonês que via coisas
b) o voo impossível de Van Persie
c) aquele cruzamento de Cuadrado
d) a velocidade de Joel Campbell
e) um lento passe de dança de Raheem Sterling à frente de Marchisio
f) os nervos de Pepe
g) a mítica defesa de Ochoa após cabeceamento de Neymar
h) o remate de Tim Cahill que resultou no melhor golo do campeonato
i) o vigor do Chile contra a lassidão espanhola
j) a ressurreição de Suárez com dois golos de campeonato do mundo
k) o passeio alegre de França pelos Alpes suíços
l) o golo do hondurenho Carlo Costly (melhor nome do mundial) contra o Equador
m) o golo anulado a Dzeko no jogo contra a Nigéria
n) aquele alemão tosco que marcou um golo no primeiro toque que deu na bola em todo o campeonato
o) a voracidade argelina a devorar os coreanos
p) Miguel Herrera a festejar os golos contra a Croácia no mais exuberante estilo mariachi
q) um golo fantástico de David Villa que será rapidamente esquecido
r) a dentada de Suárez (já muitas vezes vista), o golo de Godín (visto algumas vezes), italianos a correrem em desespero (nunca visto)
s) a cabeça abençoada de Islam Slimani
