7700: poupança de energia
Ao fim de duas semanas de futebol consumido a um ritmo de, pelo menos, duas doses diárias, o cérebro humano entra em regime de poupança. Ontem, aos intervalos de lucidez e clarividência, em que tudo me parecia harmonioso e compreensível, sucediam-se longos períodos de dormência cognitiva em que o verde das camisolas mexicanas era idêntico ao verde dos algoritmos do Matrix. A cada lançamento da linha lateral, a minha cabeça aproveitava para vaguear por todos os assuntos secundários que este campeonato do mundo me obrigou a deixar em suspenso – como o reembolso do IRS ou a alimentação dos meus filhos – regressando ao jogo minutos depois, o que, num caso, coincidiu com a paragem para hidratação dos jogadores e, nos restantes, com os movimentos serpenteantes de Robben sempre finalizados com aquela coisa entre o desmaio e o mergulho com que ele conclui todas as jogadas em que não consegue fazer golo ou passar a bola a um companheiro. Ontem, o extremo holandês derrotou Pedro Proença aos pontos. Tal como os mexicanos, o melhor árbitro português do mundo resistiu heroicamente até aos descontos, e só aí sucumbiu à humidade e à insistência de Robben. A FIFA tem agora pouco mais de uma semana para encontrar um árbitro de dentição completa e que fique tão bem na televisão como Proença, o querido dos queridos.
À noite, o meu cérebro manteve-se no modo poupança, amigo do ambiente e tal, tendo aí sido generosamente auxiliado pelas duas equipas em campo. A Costa Rica comprovou a minha teoria sobre as equipas-surpresa. Regra geral, são equipas simpáticas e fraquinhas, que se despenham, para bem dos espectadores, nos oitavos-de-final. Após a expulsão de Oscar Duarte, os costa-riquenhos, a qualidade do HD e um certo desespero helénico uniram-se para criar uma ilusão de óptica que dava a entender que os gregos eram uma equipa rápida, dominadora e entusiasmante. Só a expressão inamovível de Fernando Santos – o português com a cara mais trágico-grega de sempre – nos assegurava que o mundo ainda era o mesmo. Já decorria o prolongamento quando adormeci inapelavelmente. Acordei estremunhado. Havia lágrimas nas bancadas e gestos de incentivo no relvado e, sem o amparo da continuidade narrativa, demorei a perceber o que se estava a passar. Pensei que ainda iam marcar os penalties. Afinal, já tinha acabado tudo. Andei com as setinhas para trás – uma ferramenta muito útil para ensinar a regra do fora de jogo ao meu filho, para apreciar alguns deslizes verbais e para avaliar com justiça os atributos das adeptas uruguaias – e assisti, a salvo de qualquer desgosto, à ditosa eliminação da Grécia.
