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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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Circo da Lama

03
Nov11

Lobo Antunes, Steiner e Cátia

Bruno Vieira Amaral

Peço a atenção dos telespectadores para as capas que se seguem:

 

 

 

 

Por um inexplicável fenómeno editorial e atmosférico, ambas as revistas coincidem no tempo (esta semana) e no espaço (o das bancas). Para facilitar, chamemos a isto democracia. De um lado, temos um encontro entre dois génios, ocorrido (assim reza a capa) a 9 de Outubro, em Cambridge, lugar onde, presumo, as pessoas são muito inteligentes e dão joviais passeios pelas ruas discutindo filosofia e literatura clássica depois de manhãs intensas de salutar exercício físico. Do outro – porque, nestas coisas de cultura, a TV Guia não gosta de ficar para trás –, temos uma concorrente da Casa dos Segredos, famosa, entre outras coisas, por desconhecer o paradeiro de África e por massajar subrepticiamente a pudenda de um colega de infortúnio. Diz a capa da TV Guia que Cátia, assim se chama a rapariga, tem um problema mental, o que só pode ser considerado um progresso porque tudo indicava que teria vários. Para divertimento geral da nação, Cátia mostrou-se ser mais burra do que o comum dos seus compatriotas: acha que Londres é um país, que África fica na América do Sul (uma curiosa variação da teoria das placas) e – segundo me constou – tem por hábito analisar os mapas ao contrário, no que considero uma metáfora arguta sobre o estado actual da economia.

 

Feito o intróito, devo começar por defender a pobre rapariga, uma vez que os outros dois senhores encontrarão com facilidade quem os defenda e até quem imediatamente se ajoelhe perante a imagem da proximidade de dois mitos. A ignorância geográfica de Cátia, não sendo matéria de louvor, não será motivo para escárnio, a não ser para aqueles que estão sempre dispostos a atacar o ensino público e a lembrar o inelutável atraso cultural do povo lusitano. É óbvio que no sistema de valores de Cátia – mesmo ignorando o eventual problema mental referido na capa da TV Guia – a localização de África, o próprio conceito de África, dos continentes e do mundo, são informações neglicenciáveis, da mesma forma que a maior parte dos seres humanos vive bem sem saber o que caralho é um neutrino (a esse propósito, deverão ler a entrevista de João Magueijo, também neste número da Ler). De manhã, quando me levanto, e apesar de saber quem são George Steiner e António Lobo Antunes, é-me bem mais útil saber onde é e como chegar a Benfica, onde trabalho. Pequena nota: há uns meses, fui almoçar a um restaurante em Benfica e quem é que estava no mesmo restaurante? António Lobo Antunes. Partilhar o mesmo restaurante com um génio fez-me ter vontade de envelhecer depressa para lamentar o tempo em que era normal ir almoçar a um restaurante em Benfica e encontrar figuras da literatura mundial, Ah, tempos que não voltam mais! Retomo. Facto curioso é que, no meio de uma conversa eruditíssima, em que praticamente não há uma frase que não seja abençoada por um nome incontornável da cultura ocidental (vou ser rápido: Tchékov, Céline, Juvenal, Swift, Platão, Malraux, Diderot, Allan Poe, Kant, Jünger, Sócrates, Jesus Cristo, Bourget, Bergson, Flaubert, a puta da Bovary, Balzac, Tolstói, Pound, Stendhal, Emily Brontë, Ovídio, Horácio, Virgílio, Camões, Melville, Cervantes, Benn, Faulkner, Nabokov, Borges, Pessoa, Gogol, Zweig, Conrad, Valéry, Proust, Shakespeare, Koestler, Gide, Greene, Mozart, Schubert, Tintoretto, Rembrandt, vinho branco), falam sobre a experiência africana de Lobo Antunes. Diz o velho mestre: “Para mim, esta questão da tortura é enorme, capital. Podemos nós tocar num outro ser humano? Espero nunca ser capaz disso. Mas, em Angola, teve com certeza de fazer esta escolha.” E é então que se abre um abismo entre estes dois homens, rapidamente colmatado pela educação e elegância de quem sabe estar a viver um momento cerimonioso, um chazinho de intercâmbio de inteligências superiores. No que diz respeito a África e, mais precisamente, à guerra (ou à tortura), estes homens vivem em mundos completamente diferentes que nem os milhares de livros que leram podem unir. A África de Lobo Antunes, a noção de tortura, é algo que o escritor conheceu em primeira mão. A África de Steiner é um ponto num mapa, algo que conhece dos romances de Conrad, e o seu conhecimento da tortura uma mera hipótese académica. Outra vez Steiner: “Em Angola, teve conhecimento direto de experiências atrozes, terá visto com os próprios olhos violências e sofrimentos que eu, graças a Deus, só conheço em segunda mão e que encontro na sua obra, que nos ajuda a compreender esta enorme injustiça (...)”. Get it? Não quero desvalorizar a erudição e o saber livresco. Quero apenas sublinhar que esse tipo de conhecimento é apenas o reverso da ignorância da pobre Cátia. Para Steiner e para Cátia, para nós que lemos muito e vemos muitas séries de televisão, África é apenas um ponto num mapa, uma ideia, uma abstracção. A diferença é que a pobre Cátia não sabe onde raio fica esse ponto no mapa. Nós, com os livros, e a pobre Cátia, com a sua estupidez refulgente, vivemos em segunda mão.

 

Enquanto escrevia estas linhas no barco, duas senhoras sentadas atrás de mim deliciavam-se com a ignorância de Cátia: “Diz que Londres é um país – é uma barbaridade”, dizia uma, ao que a outra acrescentou melancolicamente, como se contemplasse a terra devastada de toda uma civilização: “É muito triste.” Até se pode dar o caso de as duas senhoras saberem quem é António Lobo Antunes, mas duvido que saibam quem é George Steiner e o que ele já escreveu sobre a barbárie e a cultura. Para elas, passageiras triviais do barco e do mundo, a barbárie está para além das muralhas daquilo que conhecem (um reflexo historicamente compreensível e humanamente perdoável), a barbárie começa na cabeça da pobre Cátia. Daqui a uns meses, já não se recordarão da infeliz. Cátia permanecerá esquecida, porém eternamente visível e disponível, nos arquivos de milhões de vídeos do youtube. Ninguém guardará na memória que, durante uma semana, partilhou as bancas de jornais com aqueles dois gigantes, cada um especialista na sua respectiva forma de ignorância, como é próprio do ser humano.

 

8 comentários

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    Bruno Vieira Amaral 21.11.2011

    Caro J. Faria

    podia perder algum tempo a explicar-lhe uma série de coisas sobre ignorância, mas vejo, pelo seu comentário, que nada lhe tenhoa a ensinar sobre essa matéria. Resta-me agradecer-lhe a generosidade de me reconhecer "algumas nuances interessantes" (são aquelas coisas para o cabelo?).

    Cumprimentos
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    J. Faria 21.11.2011

    Ahahah. Está bem, Ok, espere então. Eu tenho um comentário que o vai fazer responder melhor.

    Sr. Bruno, você é um génio e nunca ninguém tinha pensado no que o Sr. escreveu. vi a luz e nada mais posso ver.

    Ahahah.
    Vocês são todos iguais. Explique-me lá o que quer dizer com o seu texto, porque ao contrário do que pensa, um texto ambíguo não é bom por ser ambíguo. Ambiguidade faz-se de nuances (do francês nuance 1. Cada uma das diferentes gradações que pode ter uma cor entre o seu claro e o escuro. 2. Cada uma das diferentes fases ou aspectos de alguma coisa, por ténue que seja a diferença entre eles. = CAMBIANTE).

    As nuances a que me referi eram estilísticas. Em termos de assunto é que não vi nada.

    Mas afinal não somos todos ignorantes Sr. Bruno? Ou está agora a dizer que só o Sr. é que não é ignorante? Um bocado presunçoso, não?
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    Bruno Vieira Amaral 21.11.2011

    Eu agradeci-lhe precisamente a referência às nuances estilísticas.

    Vejo também que, na sua nada presunçosa opinião, o texto consegue a proeza de ser ambíguo e vazio, o que só me deixa orgulhoso.

    Dou-lhe também os parabéns por saber consultar um dicionário e demonstrá-lo publicamente.

    Quanto ao texto, lamento, mas o senhor não o percebeu. É o que dá perder tempo a ler textos vazios em vez de se dedicar a consultar dicionários que certamente farão de si uma pessoa menos ignorante.
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    J. Faria 21.11.2011

    LOL. Você é, pura e simplesmente pedante e estúpido. Perde o seu tempo tentando rebaixar-me.

    Que palerma que me saiu. Ao menos fez-me rir, Congratulo-o por isso,

    Você nem escrever nem interpretar sabe.

    Se tem uma opinião, defenda-a, senão, cale-se.

    Ponto Final.
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    Bruno Vieira Amaral 21.11.2011

    Pode começar por seguir o seu próprio conselho e defender isto que escreveu:

    "Este texto que o Sr. Bruno escreveu é em todo incipiente e inconsequente. Apesar de em termos estilísticos ter algumas nuances interessantes, em corpo e alma, é vazio, como a pobre débil mental."

    Defenda a sua opinião e eu, se tiver tempo e paciência e se o achar digno disso, respondo-lhe. Agora, não esteja à espera que eu perca tempo a rebater seriamente uma opinião tão pobremente fundamentada. E não preciso de rebaixá-lo pois você já se encontra na cave do pensamento sério. Se conseguir controlar a tendência agora demonstrada para o insulto básico, use o e-mail que está no perfil.

    Cumprimentos.
  • Sem imagem de perfil

    J. Faria 21.11.2011

    Olhe. Estar na cave do pensamento é fazer meia dúzia de comentários em que simplesmente se limitou a implicar com o que eu disse e sem dizer nada com conteúdo.

    Que quer que lhe faça, que inicie uma discussão por email? Se não quer discutir as coisas pela caixa dos comentários, então não vejo uso nela.

    O seu texto é, na minha opinião incipiente, como disse. Eu vejo que ele quer chegar a algum lado mas não percebo bem qual. Agora, se quisesse falar como "gente grande" teria respondido e explicado e se eu não concordasse teria exposto a minha opinião para isso.

    Não o fez, limitou-se a lançar umas larachas irónicas.

    No meu primeiro comentário disse

    "Sim. E depois? A ignorância vai ser sempre superior ao saber, contudo não devemos equiparar quem nada sabe com quem sabe alguma coisa e quer saber mais."

    A isto não me respondeu, que era o essencial da questão. Limitou-se a dizer que eu era ignorante. A partir daí só posso pensar que a sua opinião inicial é de facto opinião nenhuma.

    Perde o seu tempo a tentar rebaixar-me até com essas analogias baratas de eu estar na "cave do pensamento sério" quando aqui quem não sabe levar as coisas seriamente é o Bruno.
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    Bruno Vieira Amaral 21.11.2011

    Quer fazer uma tentativa de discutir a sério em vez de fazer o que fez, que foi reduzir o texto a uma coisa incipiente e vazia sem o justificar? Vamos lá:

    Você escreveu isto: ""Sim. E depois? A ignorância vai ser sempre superior ao saber, contudo não devemos equiparar quem nada sabe com quem sabe alguma coisa e quer saber mais."

    O que é que quer dizer com a ignorância vai ser sempre superior ao saber? Quer dizer que haverá sempre mais ignorantes do que sábios ou que ignorar será sempre melhor do que saber? É que são coisas distintas e a sua formulação pouco exacta não ajuda a distingui-las. Uma vez mais, talvez devesse começar por ser mais rigoroso no que escreve se quiser uma discussão a sério. Eu não equiparo quem nada sabe com quem sabe alguma coisa, e acho engraçado que consiga tirar essa conclusão de um texto vazio e inconsequente (afinal, o texto não diz nada ou você não concorda com o que é dito?). Não pode é dizer que o texto é vazio e que não concorda com o que é dito. Se é vazio (e é uma crítica que aceito, mas com a qual não concordo), é vazio, não há nada para discordar. Se não concorda (o que já outra coisa) então diga-me onde é que, no texto, se equipara a ignorância ao conhecimento. A ideia (permita-me o atrevimento de pensar que há uma ideia) é que, para cada um de nós, a barbárie começa onde acaba o nosso conhecimento, e como as senhoras do barco se divertem com a ignorância da Cátia, eu posso divertir-me com a ignorância delas, o Steiner pode sivertir-se com a minha ignorância, o Lobo Antunes pode divertir-se com a ignorância de Steiner sobre o que é viver em primeira mão algumas experiências e o João Magueijo pode divertir-se com a ignorância de 99% dos portugueses sobre o que é um neutrino. A verdade é que cada um de nós vive com a própria ignorância e que eu pelo menos vivo bem sem saber o que é um neutrino. Tudo isto está no texto, embora de uma forma menos explícita, porque gosto de acreditar que quem lê o que escrevo é suficientemene inteligente para não ter necessidade de comer papinha desfeita.
    E da próxima vez que quiser comentar, veja se argumenta adequadamente que é para não levar com as larachas irónicas que tanto o incomodaram. E não lhe respondo mais aqui porque já lhe dispensei mais espaço do que aquele que fez por merecer.
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