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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

08
Set17

A Ressurreição dos Gatos

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Março de 2017

 

Quando eu era pequeno, quatro ou cinco anos, à noite a minha mãe lia-me histórias da Bíblia. Entre as muitas histórias – da arca de Noé aos padecimentos de Jó, da mula de Balaão à aventura de Jonas a caminho de Nínive, do desgosto de Moisés às portas da Terra Prometida à destruição das muralhas de Jericó – recordo-me de duas sobre ressurreições. Na verdade, lembro-me de três, mas a história da ressurreição de Jesus era outra coisa, era o próprio fundamento da divindade de Cristo. As outras eram mais prosaicas – tão prosaicas quanto um milagre pode ser. A mais conhecida é a de Lázaro, irmão de Marta. Quatro dias após a morte de Lázaro, Jesus chega ao sepulcro e, apesar de o cadáver deitar cheiro – e como eu consigo sentir o odor da putrefacção do corpo que mais não é do que um conjunto de palavras num livro sagrado ainda me impressiona –, ordena-lhe que se levante e ande e Lázaro, amortalhado, regressa atónito à luz do dia, ao mundo dos vivos (lembram-se da cena do filme Inteligência Artificial quando os extra-terrestres concretizam o desejo do menino robô de rever a mãe, do estado em que a mãe desperta desse sono de séculos?).

A outra história era a da filha de Jairo. Este pede a Jesus que cure a filha. O estado da menina é grave. Mas, a caminho da casa de Jairo, Jesus é interpelado por uma mulher que sofre de hemorragias. Entretanto, a filha de Jairo acaba por morrer. Ao chegar ao local, Jesus encontra os familiares a chorar a morte da menina, mas diz-lhes que não se devem preocupar porque ela apenas dorme. Entra no quarto e diz-lhe: “Talita, cumi” ou “Menina, levanta-te.” É um episódio interessante porque Jesus, em vez de tirar partido do milagre, parece querer convencer os familiares de que a menina não tinha morrido.

Mais de trinta anos após esses tempos em que a minha mãe me lia histórias bíblicas, agora é a minha vez de ler à minha filha contos de fadas, histórias da carochinha. Nestes contos há muitas mortes mas também há, pelo menos, duas ressurreições – a da Bela Adormecida e a da Branca de Neve. Eu e a minha mulher discutimos sobre a forma adequada de ler as histórias: deveríamos ou não dizer que tinham morrido? Seria melhor dizer que estavam apenas a dormir, como Jesus disse aos parentes de Jairo? Como alguém na escolinha lhe tinha dito que as pessoas, quando morrem, vão para o céu, eu mantive a versão, embora garantindo que quer a Branca de Neve, quer a Bela Adormecida, não tinham ido para o céu. Mas, no fim, ambas as personagens acabam por se levantar e andar, ressuscitadas pelo milagre do amor anunciado. Tudo acaba bem.

Semanas depois, ao ler-lhe a história de uma toupeira que queria agarrar a lua, a minha filha disse-me que sabia onde era a lua, era o sítio onde estava a mãe da avó Fátima. Não a contrariei. Sim, talvez os mortos vão para a lua e o céu seja apenas um deserto de estrelas. E, acrescentou a minha filha, era também na lua que estava o “gato morrido”. Uns tempos antes, ao sairmos de casa, deparámo-nos com um gato morto junto ao nosso carro. A minha filha quis tocar-lhe porque enquanto eu via um gato morto, com um fio de sangue na boca, ela via um gato deitado, a dormir pacificamente. Sem pensar, disse-lhe: “está morto.” A minha mulher ficou chocada, mas era tarde demais. Nos dias seguintes, à noite, a minha filha só falava no “gato morrido” e quando chegávamos perto do passeio onde, dias antes, o cadáver do gato repousava, perguntava-nos para onde tinha ido e eu respondia que se tinha ido embora, enredando-me em contradições que até a mim me faziam duvidar acerca do real destino do gato. Então, uns dias depois, no mesmo local, vimos um gato muito parecido com o outro e a minha filha disse logo: “está ali o gato morrido.” Eu, feliz por poder reparar o meu erro, confirmei: “pois está.”

Eu sabia que era outro gato, caro leitor, mas se não há mal nenhum em acreditar que os nossos mortos vão para o céu, que as princesas despertam de sonos de cem anos quando beijadas por príncipes, que os príncipes se apaixonam por donzelas em caixões de vidro e que até o acaso pode ressuscitar uma princesa que trincou uma maçã envenenada, qual Eva incapaz de resistir à tentação, também não é errado acreditar que pobres gatos suburbanos e cinzentos podem voltar a viver. Não se trata de poupar as crianças às agruras da realidade ou de as fazer acreditar em histórias da carochinha, mas a de partilhar a certeza de que os gatos “morridos” continuam a viver em nós sempre que nos lembramos deles, que Lázaro, a filha de Jairo e a mãe da avó Fátima continuam vivos através das histórias que as nossas mães nos contavam, que nós contamos aos nossos filhos e que eles, um dia, irão contar aos nossos netos.

29
Ago17

Hiroshima, meu amor

Bruno Vieira Amaral

Há dias, passei em frente da casa de uma antiga colega da escola secundária. Presumo que já não viva ali. Há uns anos, vi pendurada numa janela uma dessas placas das imobiliárias. Era uma rapariga tímida, timidez que, porém, só consumia uma parte do seu encanto. Éramos próximos, mas não íntimos. Uma vez, já perdi a conta aos anos, convidei-a para irmos ao cinema. Hiroshima, meu amor. Nunca beijei esta rapariga, nunca fizemos amor, nunca nada. Mas eu vi no olhar dela, à saída da sala, aquele brilho baço que só desce sobre as mulheres depois de um orgasmo. Estava perturbada, isso sei, e penso que me perguntou porque é que a tinha convidado para ver aquele filme. Porquê? Queria que ela me amasse? Não sei. Queria marcá-la, queria que o corpo dela estremecesse e os pensamentos explodissem e o coração batesse à velocidade do cinema, vinte e quatro batimentos por segundo, e queria que ela, por muitos homens que viesse a conhecer, nunca mais esquecesse aquela noite. E, afinal, tantos anos depois, a única certeza é a de que eu não me esqueci. Tudo é vaidade.

28
Ago17

A vida ao ritmo das redes sociais

Bruno Vieira Amaral

A presidente da CIG afirmou que a decisão de recomendar a retirada dos livros da Porto Editora do mercado foi uma resposta ao clamor nas redes sociais: “nós recomendámos tendo em conta a polémica que estava nas redes sociais […] recomendámos à Porto Editora que pudesse retirá-los para apaziguar de alguma forma os ânimos e permitir com alguma serenidade olhar para os conteúdos”. Ou seja, primeiro recomenda-se a suspensão da venda e depois é que se vai olhar com alguma serenidade para os conteúdos. Teresa Fragoso nem sequer precisava de dizer que foram as redes sociais a impor uma decisão rápida, mas, ao mesmo tempo, procurou demonstrar quão perniciosas eram as diferenças entre os livros escolhendo os exemplos mais convenientes, fazendo o que se chama cherry picking. Ricardo Araújo Pereira fez o exercício contrário e demonstrou o que já sabíamos: o clamor nas redes sociais é, quase sempre, o ruído da ignorância, quando não da má-fé. Os indignados querem indignar-se e não admitem que os factos sirvam de corta-fogo aos incêndios virtuais. Houve quem exigisse saber o nome dos autores dos livros, certamente com propósitos pedagógicos de humilhar, insultar e ofender, mas provando que nem sequer tinham visto os tais blocos de actividades, não que isso interesse muito quando a indignação, como os incêndios de Verão, já está descontrolada e tem várias frentes activas. A Porto Editora, também atordoada, foi lesta a anunciar a retirada dos livros do mercado, sempre ao ritmo imposto pelas redes sociais. Agora parece que mudou de estratégia, mas, quanto a mim, o mal estava feito: a obediência imediata teve o cheiro da capitulação ou, ainda pior, da minimização de danos, expressão corriqueira nos departamentos de comunicação das empresas sempre que as chamas das redes sociais lhes chegam às portas. Como era de esperar, aquele momento didáctico de Ricardo Araújo Pereira teve já uma grande repercussão, mas nem isso foi suficiente para aplacar a fúria justiceira de alguns. “Está bem, o caso não é assim tão grave, mas a luta pela igualdade de direitos é justa e isso é que interessa”, dizem, e siga para bingo. Logo após estalar a polémica, o pediatra Mário Cordeiro deu uma entrevista ao Expresso em que dizia não estar de acordo com a recomendação e sustentava a sua opinião. Respostas de alguns indignados: é faccioso, deve ter interesses obscuros para ser tão parcial, não gosto da pinta dele. Porém, aquilo que na minha opinião é mais grave é constatar a facilidade com que milhares de pessoas aceitaram a bondade de uma recomendação para a retirada de um livro do mercado. Dou de barato a ignorância em relação ao conteúdo dos livros. Afinal, ninguém frequenta as redes sociais à espera de encontrar opiniões fundamentadas e que resultem de uma análise aprofundada dos factos. Mas é preocupante que uma tal recomendação encontre semelhante acolhimento numa sociedade. Recomendar a retirada de um livro do mercado (aos que, em defesa da CIG, dizem que não é uma proibição mas uma simples recomendação, realçando a bondade das intenções da comissão, lembro que, felizmente, esta não tem poderes para decretar a proibição de um livro, mas é claro que se tivesse, isso também não perturbaria muita gente) é uma decisão grave que não pode ser tomada num clima definido pela excitação das redes sociais. Poderia até ser justa (e já se provou que não é), mas isso dificilmente aconteceria quando a presidente da comissão admite que o ruído das redes teve um peso decisivo na recomendação. Estas indignações são cíclicas e de curta duração, mas, enquanto duram, criam a ilusão de ocupar todo o espaço mediático disponível. É assim o tempo das redes sociais, mas não pode ser esse o tempo de um comissão como a CIG, por uma vez transformada em tribunal instantâneo das boas práticas editoriais. A CIG solicitou pareceres independentes para fundamentar a decisão? Em que consistiu a “avaliação técnica” que diz ter feito? Ouviu a editora? Ouviu os autores? Fez uma análise de outras publicações equiparáveis? Não fez porque esse processo requer tempo e quando o tempo é fixado pelas redes sociais nunca há tempo. Não se pode “pedir às redes sociais” que respirem fundo, reflictam e só depois se pronunciem. Mas isso é o mínimo que se pode exigir a um organismo público que recomenda, com certa leveza de espírito, que um livro seja retirado dos pontos de venda.

16
Ago17

Detestava o desleixo

Bruno Vieira Amaral

“Jelisic começava por recolher o dinheiro, os relógios e as jóias dos detidos. Não raro, batia-lhes. Fazia isto diante da namorada, Monika, que às vezes visitava o campo porque era o irmão quem o chefiava. Em seguida, os prisioneiros eram obrigados a sair do hangar, um a um. Jelisic ordenava a um homem que se ajoelhasse e encostasse a cabeça a uma grelha metálica de escoamento. Depois matava-o com dois tiros na nuca, usando uma pistola com silenciador. Durante um ou dois minutos antes da execução, o homem escolhido implorava que lhe poupasse a vida. “Não me faça isso. Porquê eu? Não fiz nada.” Mas não adiantava. Antes de o matar, Jelisic insultava a mãe do prisioneiro. Na verdade, quanto mais medo este demonstrava, maior o prazer do algoz. A seguir, dois prisioneiros transportavam o corpo para um camião-frigorífico utilizado para levar os cadáveres para uma vala comum e Jelisic mandava lavar a grelha. Detestava o desleixo.”

Não Faziam Mal a Uma Mosca, Slavenka Drakulic

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 Goran Jelisic executa um prisioneiro a 7 de Maio de 1992

11
Ago17

Barbosa e os guarda-redes negros

Bruno Vieira Amaral

Há 23 anos que a equipa principal do Benfica não apresentava um guarda-redes negro. O jovem Bruno Varela sucede a Neno, o último negro a defender a baliza do Benfica. Pode ser uma simples curiosidade de almanaque, mas a verdade é que fazer um onze do Benfica dos últimos 23 anos só com jogadores negros é relativamente fácil. O grande problema é mesmo encontrar um nº 1. Vejamos: na defesa teríamos Luisão, Alcides, Okunowo, Zoro, Edcarlos, Nelson, Nelson Semedo, Sidnei, Miguel, Hélder, José Soares, Eliseu, Armando; no meio-campo, Michael Thomas, Manuel Fernandes, Binya, Sabry, Balboa, Amaral, Carlitos, Edilson, Ramires, Talisca; no ataque, Mantorras, Geovanni, Makukula, Javier Balboa, Suazo, Manú, Brian Deane. Suficiente para constituir um plantel. Só falta o guarda-redes, que não poderia ser nenhum destes: Júlio César, Quim, Ederson, Robert Enke, Paulo Lopes, Moreira, Oblak, Roberto, Butt, Artur, Júlio César, Mika, Eduardo, Paulo Santos, Moretto, Rui Nereu, Preud’Homme e Bossio.

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Bem, mas Varela é apenas pretexto para falar de Moacir Barbosa Nascimento, guarda-redes do escrete no Mundial de 1950 perdido no Maracanã para o Uruguai de Ghiggia. Ora, o pobre Barbosa era negro e, por esse motivo ou simplesmente porque o guarda-redes é sempre o alvo mais fácil, foi o bode expiatório da enorme decepção brasileira. Reza a lenda que os pais apontavam Barbosa e diziam aos filhos que aquele era o homem que tinha feito o Brasil chorar. O próprio Barbosa dizia que era o único brasileiro que tinha cumprido uma pena superior a 30 anos.

Em 1994, no Mundial dos EUA, uma equipa de televisão levou o velho Barbosa para falar com Cláudio Taffarel, o loiro que defendia as redes do escrete. Temendo que Barbosa contaminasse o alto astral da equipa, o supersticioso Mário Zagallo, então adjunto de Carlos Alberto Parreira, terá dado ordens para manterem o ex-goleiro bem longe dos jogadores. Nesse ano, o Brasil foi campeão, mas só doze anos depois é que um negro voltou a ser o guarda-redes titular indiscutível da selecção brasileira num Mundial. Dida, que jogava no Milan, quebrou a maldição e, de então para cá, houve vários guarda-redes negros brasileiros em destaque no futebol internacional, como Helton ou Heurelho Gomes.

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Essa reabilitação do guarda-redes negro não impediu que, até ao fim da vida, Barbosa continuasse a ser a cara da célebre derrota. Morreu em 2000, dizem que de tristeza prolongada. A filha adoptiva, Tereza Borba, lembra que no dia do jogo com o Uruguai os vizinhos de Barbosa tinham preparado um banquete na rua. Quando regressou a casa, Barbosa encontrou a mesa posta e farta, a imagem paradoxal da desolação: “nem os cachorros atacaram a mesa. Parecia que o mundo tinha parado. Isso ficou marcado na memória dele: uma mesa abastada para um banquete enorme e ninguém quis comer.”

Barbosa só foi vingado com o Mineiraço do mundial de 2014, os 7-1 com que a Alemanha dizimou o Brasil na meia-final. Foi preciso uma humilhação olímpica para que o Brasil perdoasse o guarda-redes de 1950. Na baliza do escrete, nessa terrível noite de Belo Horizonte, estava o actual guarda-redes do Benfica, Júlio César. Ainda é cedo para dizer se Bruno Varela será o titular do Benfica esta época, mas deixo-lhe o conselho de se manter afastado do Maracanã. É que uma das piores noites da carreira de Neno foi no mítico estádio do Rio de Janeiro, numa das poucas ocasiões em que defendeu a baliza da selecção portuguesa. Foi a 8 de Junho de 1989 e Portugal perdeu por 4-0. Naquela noite, foi ele o Barbosa.

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01
Ago17

Uma intelectual de direita

Bruno Vieira Amaral

“P. Sendo a figura cultural que é, como é que reage à circunstância de a maioria esmagadora dos intelectuais portugueses terem neste momento, uma opção eleitoral tão diferente da sua [Agustina apoiava a candidatura de Freitas do Amaral nas Presidenciais de 1986]?

R. Aqueles que se podem aproximar da minha área, não profunda, mas, pelo menos, superficialmente, serão pessoas um pouco saudosistas, um pouco situadas no regime anterior. Não as ignoro, são pessoas perfeitamente respeitáveis. Mas, hoje, depois da II Guerra Mundial, tornou-se uma espécie de marca, de ferrete não ser uma pessoa de esquerda. Basta o nome para as pessoas ficarem um pouco tranquilizadas. Evita-lhes muitas complicações. E as pessoas, mais ou menos, estão todas dependentes umas das outras. Ou, pelos seus empregos, ou pelos seus lugares, ou pelas suas necessidades de se orientarem na vida, sobretudo, depois dos 30 anos. Às pessoas que, como dizia o poeta Heine, já compraram o seu serviço de chá, de porcelana, é muito difícil evitar estilhaçar ou perder a asa de uma chávena… Sobretudo, no campo da política, a pessoa começa a dizer «ele é fascista» ou «se ele pensa desta maneira é porque é fascista e é porque, nesse caso, já teria apoiado os campos de concentração, e, nesse caso, até já teria sido, possivelmente, um dos que aplaudiram os discursos do Hitler». E coisas assim. A imaginação não pára mais e as pessoas, a certa altura, estão perfeitamente paralisadas de terror. É um novo terrorismo.”

Agustina por Agustina entrevista conduzida por Artur Portela

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31
Jul17

A fé intelectualizada em Silêncio

Bruno Vieira Amaral

Mais do que a questão de se saber se o Cristianismo poderia prosperar no terreno pantanoso do Japão ou se, prosperando, ainda seria o mesmo Cristianismo ou, ao invés, uma versão de tal forma adulterada e niponizada que já nem poderia ser considerada a mesma religião, o verdadeiro confronto no livro (e no filme) é entre a fé intelectualizada dos padres (nomeadamente de Sebastião Rodrigues) e a fé simples, porém avassaladora, dos crentes japoneses. Para Rodrigues, fé e apostasia são conceitos teóricos. Para os Kirishitan, são experiências. Por isso, a apostasia de Rodrigues é mais expectável e natural do que a apostasia dos camponeses. Ele está mais próximo da visão dos inquisidores que lhes dizem que aquilo não passa de uma formalidade. Ora, aqueles para quem a fé é algo que se manifesta totalmente nos rituais, não há diferença entre a renúncia formal e a renúncia genuína, de coração. Só para aqueles que separam os conceitos – e Rodrigues é um deles – o pisar de uma imagem de Cristo pode ser diferente de pisar o próprio Cristo. Aos camponeses, que tinham sido introduzidos em mistérios como os da transubstanciação, não se lhes podia simplesmente exigir que esvaziassem o acto de pisar o fumi-ye da substância divina da imagem. O corpo de Cristo tanto está na hóstia como no objecto que devem pisar.

A dissonância entre Rodrigues e os japoneses expressa-se de forma mais integral na cena em que, encarcerados, falam sobre o paraíso. Rodrigues faz um esforço para se adaptar à literalidade dos crentes para quem o paraíso não é uma ideia, uma aspiração vaga, é uma realidade imediata que os espera. A única forma que Rodrigues tem de suportar o seu martírio é o de, uma vez mais, o intelectualizar, vendo, neste caso, o seu sofrimento à luz do calvário de Cristo. Esse orgulho e essa vaidade não passam despercebidos aos inquisidores dos quais, na verdade, Rodrigues está bem mais próximo do que dos camponeses. Rodrigues é levado às portas do martírio não pelo despojamento e pela humildade, mas pelo orgulho, pela racionalização. E é precisamente por esse motivo que fica à porta do martírio incapaz de dar o salto (ou mergulho, como no caso de Garupe) de fé.

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30
Jul17

Uma curiosidade literária

Bruno Vieira Amaral

Vanina Vanini, baseado num conto de Stendhal (de seu verdadeiro nome Henri-Marie Beyle), é um filme de 1961, realizado por Roberto Rossellini (de seu verdadeiro nome Roberto Rossellini). Não é das obras mais conhecidas do realizador italiano e, aquando da sua apresentação no festival de Veneza, recebeu críticas bastante negativas.

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Para o papel principal – a condessa romana do título – Rossellini escolheu a actriz Sandra Milo, que haveria de se destacar em dois filmes de Federico Fellini (de seu verdadeiro nome Federico Fellini), Oito e Meio e Julieta dos Espíritos.

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Milo tinha nascido em Tunes, a 11 de Março de 1933, e o nome que lhe foi dado à pia não foi o nome com que se celebrizou: foi baptizada Elena Salvatrice Greco. Por coincidência, Elena Greco é o nome da narradora e protagonista da tetralogia de Nápoles, da escritora Elena Ferrante (de seu verdadeiro nome).

28
Jul17

Brian “Kato” Kaelin: a primeira estrela da reality tv

Bruno Vieira Amaral

Durante anos, Kim Philby, agente dos serviços secretos britânicos, passou informações confidenciais à União Soviética. Esteve quase a ser apanhado por diversas vezes. Philby tinha estado na Guerra Civil de Espanha como correspondente do The Times. Apesar de desconfianças iniciais que recaíram sobre si, após sobreviver a um atentado que vitimou três outros jornalistas, Philby acabou condecorado pelo regime de Franco com a Cruz Vermelha de Mérito Militar, em Março de 1938. Dois anos depois, um dissidente soviético relatou às autoridades britânicas que havia um agente duplo nos serviços secretos que tinha estado em Espanha como jornalista. A informação não deu origem a qualquer investigação e Philby pôde prosseguir a sua actividade.

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Harold "Kim" Philby

 

Noutra ocasião, Philby esteve quase a ser denunciado quando o vice-cônsul soviético em Istambul pediu asilo ao Reino Unido, prometendo revelar o nome de dois agentes infiltrados no Ministério dos Negócios Estrangeiros e outro nos serviços de informação. As autoridades soviéticas conseguiram levá-lo de volta para Moscovo e Philby, que tinha sido incumbido de o interrogar, escapou uma vez mais.

Em 1949, foi destacado para a embaixada britânica em Washington, onde exerceu o cargo de primeiro secretário. Guy Burgess, outro espião britânico a soldo dos soviéticos, foi fazer companhia a Philby em 1950. Em Washington já se encontrava Donald McLean, o principal suspeito de passar informações da embaixada britânica para Moscovo. Com o cerco a apertar-se sobre este último, Philby encarregou Burgess de levar McLean para a União Soviética. O desaparecimento dos dois diplomatas gerou enorme falatório, mas quando se soube que estavam em Moscovo e, como tal, tinham estado a trabalhar para os soviéticos, as atenções viraram-se para Philby. Este negou sempre que fosse o “terceiro homem”, mas foi obrigado a demitir-se do MI6 em Julho de 1951. Sem acesso a informações relevantes deixou de colaborar com os serviços de inteligência soviéticos. Em 1955, deu uma conferência de imprensa em que, pela enésima vez, se declarou inocente das acusações de ser um espião. Só oito anos mais tarde, na sequência das revelações de um diplomata soviético dissidente é que se confirmou que Philby era mesmo o terceiro homem. Em Julho de 1963, a URSS concedeu-lhe asilo político.

Há várias teorias para explicar o facto de Philby nunca ter sido detectado, mas o certo é que nunca foi. Em certas situações, teve sorte. Noutras, engenho. Mas se em 1955, quando Philby deu a célebre conferência de imprensa, Paul Ekman já tivesse desenvolvido o seu sistema de análise de micro-expressões faciais, talvez o espião tivesse sido desmascarado na altura. Analisando o comportamento e as reacções automáticas e involuntárias de Philby, Ekman concluiu que havia indícios claros de que ele estava a mentir. Pode argumentar-se que é fácil acertar no Totobola à segunda-feira, mas se virmos as imagens da conferência de imprensa é difícil não concordarmos com a análise de Ekman: há um momento em que a expressão de Philby é, sem sombra de dúvida, a do “gato que comeu o canário”:

 

Conferência de imprensa de Philby em 1955

 

Outro dos exemplos que Ekman costuma dar de alguém cujas emoções são denunciadas pelas micro-expressões faciais é o de Brian “Kato” Kaelin. Em 1995, este aspirante a estrela de Hollywood, na altura com 36 anos, foi uma das testemunhas no julgamento de O. J. Simpson, acusado do homicídio da mulher, Nicole Simpson, e de Ron Goldman. Questionado pela advogada de acusação, há um instante em que a expressão de Kaelin denuncia um sentimento de aversão que ele procura ocultar pelo discurso. Esse momento está aqui, analisado pelo próprio Ekman:

 

 

Os casos de Philby e de Kaelin são ambos mencionados por Ekman no livro Blink, de Malcolm Gladwell, um misto de reportagem e ensaio sobre o conhecimento instintivo, o poder das primeiras impressões e tudo aquilo que sabemos sem sabermos que sabemos.

 

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O nome de Kato (alcunha com origem na personagem desempenhada por Bruce Lee, na série de final dos anos 60, The Green Hornet, “As Aventuras de Bruce Lee”) Kaelin surge apenas como exemplo da teoria de Ekman e também há quem diga que ele não passou de uma nota-de-rodapé bizarra no julgamento mais mediático do século XX nos EUA. Mas essa nota-de-rodapé foi suficiente para Kaelin ter os seus 15 minutos de fama. Transmitido em directo pela televisão, o julgamento tinha uma estrela inquestionável, o réu, mas rapidamente formou um elenco notável de secundários, desde o advogado de Simpson, Johnnie Cochran, ao juiz Lance Ito, do agente da polícia Mark Fuhrman a outro dos advogados da equipa de Simpson, Robert Kardashian, o patriarca do clã que ainda não dominava agenda mediática.

Deste rol de secundários, Kato Kaelin foi dos que mais se destacou, tornando-se numa “celebridade menor” durante o julgamento. Para isso contribuiu o seu aspeto de surfista perplexo, entre o perdido e o receoso, uma espécie de The Dude avant-la-lettre a quem tivessem cortado o abastecimento de marijuana. Kaelin era uma testemunha importante porque estava em casa dos Simpson na noite em que os homicídios foram cometidos, 12 de Junho de 1994. Aliás, Kaelin era hóspede permanente embora, segundo o próprio, não pagasse renda porque O. J. lhe tinha dito que não queria o dinheiro dele. Kaelin e Nicole Simpson eram amigos desde o início da década de 80 e quando Kaelin tentou a sua sorte em Los Angeles, a mulher de O. J. deu-lhe uma ajudinha. Segundo Kaelin, terá sido depois o próprio O. J. a convidá-lo para ficar a viver na mansão durante uns tempos.

 

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Brian "Kato" Kaelin no papel de uma vida

 

Em 1987, Kato Kaelin tinha sido protagonista de um filme intitulado Beach Fever que não lhe trouxe grande notoriedade, mas que, até ao momento do seu testemunho em tribunal, era o ponto alto da sua carreira de actor. Entrevistado em 2001, Kaelin mostrou-se desagradado com o facto de ser reconhecido sobretudo pelo julgamento de O. J. Simpson:

“Não gosto de ser conhecido pelo julgamento de O.J. e agora estou a tentar ultrapassar isso. Já passaram seis anos e tenho cartão do sindicato de actores há dezassete. As pessoas deviam ter em conta que, já em 1986, fiz um anúncio da Coca-Cola. Portanto, como vês, ando nisto há muito tempo.”

A declaração é involuntariamente cómica e involuntariamente injusta porque há poucos actores que tenham tido uma oportunidade de brilhar tão intensamente quanto Kaelin brilhou durante o interrogatório. A sua perplexidade, desorientação e incómodo são palpáveis e, de certo modo, comoventes. A certa altura, o público desata às gargalhadas com uma das suas respostas (“we were not going for the same parts”) e Kato Kaelin não sabe se há-de rir, talvez com receio que isso seja entendido como uma ofensa ao tribunal. Ali está um actor falhado, sem grandes perspectivas de futuro, a viver da generosidade alheia, no maior palco do mundo, a televisão, mas com a espada da justiça a pender sobre ele. Vale a pena ver cada minuto da “actuação” dramática de Kato Kaelin porque ninguém, sobretudo os fãs de filmes de tribunal, lhe poderá ser insensível:

 

  

A defesa de O. J. Simpson tentou desvalorizar o testemunho de Kaelin, considerando-o um parasita (“a freeloader”), e na verdade era isso que ele era e é precisamente isso, e a sua visível vulnerabilidade, que gera uma imediata empatia com os espectadores (em declarações a Oprah Winfrey, em 2012, Kato Kaelin disse que as pessoas julgaram-no de forma errada e que ele nunca viveu como um parasita porque esteve sempre a trabalhar).

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 Brian Kato Kaelin, 22 anos depois dos 15 minutos de fama

 

Para muitos o julgamento de O. J. Simpson marcou o início da reality tv e, nesse caso, Kato Kaelin foi uma das primeiras estrelas da televisão da vida real. Tinha a vantagem de poder ser confundido com um desses galãs de melenas leoninas de séries televisivas como Dinastia ou Falcon Crest (afinal, era um actor). Mais do que uma pessoa que, por acaso, se viu envolvida no julgamento do século, Kato Kaelin foi visto e julgado como uma personagem e, por essa razão, teria sido justo tê-lo premiado pelo desempenho de uma vida. A vida real.

26
Jul17

Como sobreviver à cerimónia de casamento

Bruno Vieira Amaral

Publicado na GQ

No dia em que me casei pela primeira vez caiu uma chuvada bíblica que, a ser verdade o que dizem os supersticiosos, teria abençoado aquela união por mais de um século. Este é o primeiro ensinamento útil para o jovem noivo: as condições meteorológicas adversas podem atrapalhar a cerimónia mas não garantem a felicidade eterna, a não ser que a eternidade esteja pela hora da morte e já não ultrapasse os três anos e dez meses.

Tenho de agradecer à minha madrinha de casamento o empenho na escolha do fato e dos sapatos (os mais caros que, não sem remorso, alguma vez comprei) mas nunca lhe perdoarei o ter-me obrigado a fazer uma limpeza facial nos dias que antecederam a cerimónia. O noivo deve estar apresentável e, se lhe for possível, deve evitar comparecer na cerimónia com ar de playboy hondurenho com sífilis, o que acontecerá se tiver a infeliz ideia de sair diretamente da despedida de solteiro num obscuro clube de strip para uma igreja toda iluminada. Tudo o que esteja para além desses cuidados mínimos causará nos convidados a impressão desconfortável de haver duas noivas. O fato deverá ser inconspícuo e a utilização de colete apenas é autorizada se o perímetro abdominal do noivo não o fizer parecer um pinguim suicida. Se o confundirem com outro convidado ou com um empregado de mesa, é sinal de que a escolha da indumentária foi acertada.

Por falar em convidados, a tarefa de os selecionar é bem mais espinhosa do que poderá parecer à partida. Normalmente a questão resolve-se delegando aos pais dos noivos – os mecenas da cerimónia – essa missão que eles, em função do orçamento, abraçam com agrado, convidando parentes há muito esquecidos, algumas pessoas lá da terra e uma ou outra vizinha cuja única credencial é o facto de ter andado “com este menino ao colo.” Listas mais selectivas podem originar conflitos diplomáticos que só serão sanados no próximo funeral. É avisado não deixar de fora tias com conhecimentos de bruxaria, mau-olhado e enguiços.

Encontra-se com facilidade qualquer empresa que, a troco de uma módica quantia, elabora os convites, desde os mais sofisticados que, quando abertos, tocam a marcha nupcial, e com os nomes dos noivos e dos respetivos pais em relevo dourado, aos mais simples e espartanos. Sei de um caso em que os convites foram feitos por uma associação de crianças portadoras de deficiência, o que, à primeira vista, me levou a pensar que estava a ser convidado para uma exposição de arte moderna. Não sei de quem terá partido a brilhante ideia, mas os convites do meu casamento foram feitos por nós. Comprámos os materiais – papel, espigas e UHU – e dedicámos horas irrecuperáveis da nossa existência a fazer convites que qualquer criança de seis anos teria feito com maior proficiência.

Outro assunto muitas vezes menosprezado é o do fotógrafo. Algumas das mais pavorosas fotografias que conheço foram tiradas em casamentos. Basta passar pela montra de um fotógrafo e reparar nas aberrações luzidias, gordurosas e sorridentes que expõem inapelavelmente a miséria e o grotesco que pode haver na felicidade. O meu conselho é que optar pelo outro extremo – o fotógrafo de casamentos que se julga um Herb Ritts – pode ser igualmente desastroso. Entre o kitsch e o arty tem de haver uma solução e é provável que a encontrem numa rua de Odivelas.

Aqui chegados, é de suma importância sublinhar um facto preponderante: caro jovem noivo, a cerimónia em que desempenharás um omnipresente papel secundário destina-se, em primeiro lugar e acima de tudo, a satisfazer a noiva e os pais dela. É teu dever assegurar que todas as decisões tomadas são do seu agrado, mas sem nunca demonstrares apatia. É importante, eu diria fundamental, que dês alguma luta, que os sogros sintam que a opção pela mesa de queijos foi um triunfo, que a contratação daquele formidável músico de fim de semana foi uma conquista. Não te importes de fazer de derrotado. Se almejares uma felicidade duradoura, este conselho ser-te-á muito útil, não só para o dia do casamento como para o resto da vida a dois.

Mostra alguma relutância em relação às sugestões deles, mas não com tanta convicção que pensem que tens uma alternativa. Deixa vincado que, por ti, por exemplo, não haveria mesa de mariscos ou que tens dúvidas em relação à decoração, mas que estás disposto a fazer essas concessões em nome da felicidade geral. E assim, participando ativamente no processo mas nunca te comprometendo com nada, pedindo esclarecimentos sobre pormenores e preços como se isso te importasse, as decisões vão sendo tomadas de forma indolor e sem que, mais tarde, alguém te possa pedir responsabilidades se algo correr mal.

Com isto em mente, nunca compres uma guerra por causa da escolha musical. No teu íntimo, podes acalentar o sonho de um copo de água ao som dos Pearl Jam, dos Soundgarden, da fase mais deprimente dos Radiohead ou do “Hallelujah” do Cohen, mas essa é uma fantasia de que deves abdicar alegremente. No casamento, o “povo” – essa ideia que só conheces dos livros da Raquel Varela e do que estudaste sobre a Revolução Francesa – estará materializado no corpo volumoso daquele tio que não terá sossego enquanto não liderar a marcha ferroviária do “Apita o Comboio” e anunciar com todo o entusiamo alcoólico que gosta de chupar os peitos da cabritinha. Não penses que isto desprestigia a festividade. Isto é a festividade.

Porém, nem um repertório do nosso cancioneiro pimba te desobriga da mais ingrata das tarefas, que é a abertura da pista ao som de uma valsa delirantemente executada num Roland U-20 pelo organista eléctrico acompanhado pela irmã, geralmente uma Rosa com astigmatismo. Aconselho-te a não cometeres o erro que cometi, que foi dançar de forma intimista e rígida ao som de uma canção “que nos dizia muito”. Aquele não é momento para intimidades, é o momento para profissionais. Se, como a mim, Deus não te deu o dom da dança, frequenta umas aulas e reza por inspiração divina para que os convidados não fiquem a pensar que sofres de alguma doença degenerativa.

Apesar de todos os avanços da ciência gastronómica, da miríade de programas de culinária, da fama excessiva dos novos chefs, da cultura gourmet, das vieiras coradas em óleo de avelã, dos crumbles de tomate seco, dos pratos minimalistas, lembra-te que uma festa de casamento é uma celebração boçal da quantidade, da abundância e do excesso. Os teus convidados, mesmo os de compleição mais delicada, esperam cascatas de camarão, cordilheiras de queijos, enxurradas de doces, lascas gargantuescas de presunto, frutas como nem em Canaã. Não esperes que exibam o comportamento moderado do connoisseur. Prepara-te para uma nuvem de gafanhotos esfaimados e não ficarás desiludido. No final as mesas parecerão ter sido varridas por um ciclone e deverás alegrar-te com isso.

Daí que a mesa de queijos, aparentemente uma questão menor, seja tão importante. Se houver mesa de queijos, é provável que muitos passem por ela sem prestar atenção; mas se não houver mesa de queijos, todas as conversas no regresso a casa apontarão com desconsolo e amargura essa falha imperdoável. Uma seleção frugal de queijos de qualidade poderá fazer sentido em certos meios calvinistas, mas sugiro que optes por uma opípara mesa de queijos, muralhas de Roquefort, toneladas de Camembert, pirâmides de Brie e um queijinho de Nisa em honra do produto nacional. Se fores um leigo na matéria ficarás surpreendido, como eu fiquei, com a variedade de queijos que o ser humano, ao longo de milénios de civilização e pastorícia, foi inventando, e isto sem um departamento de inovação e desenvolvimento a dar dicas (“agora vamos experimentar este com ervas”, “temos de ver se o mercado está receptivo a estes odores mais fortes”). 

O momento mais solene da cerimónia, mas que exigirá de ti e da tua mulher uma falsa descontração, é aquele em que percorrem as mesas, agradecendo a presença dos convidados, oferecendo-lhes charutos, garrafinhas de vinho do Porto e aquilo (seja lá o que for) que nestas ocasiões se oferece às senhoras, perguntando-lhes circunstancialmente se está tudo bem e criando o ambiente propício à recolha do dízimo. Deves evitar olhar gulosamente para o envelope e, se tiveres lata para isso, podes dizer que não era necessário e que nada te deixa mais satisfeito do que a presença deles naquele dia tão especial. Ao mesmo tempo, deves aprender a disfarçar a desilusão quando, no lugar de um envelope, um familiar mais antiquado vos presentear com um serviço de chá, uma batedeira ou um decantador. Para o caso de não saberes, informo-te que o casamento é um excelente negócio e que não será um liquidificador ou um conjunto de toalhas de casa de banho a impedir um lucro considerável não sujeito (por enquanto) a impostos.

A cerimónia aproxima-se do fim e, em circunstâncias normais, estarão ambos exaustos. Alguns resistentes, vergonhosamente embriagados, voltejam pela pista, descoordenados e confusos, domados à distância pelos olhares severos das esposas. É bom que tu, jovem noivo, não estejas em semelhantes condições. Mas pior do que um noivo desgraçadamente bêbado é um noivo inflexivelmente sóbrio. Bebe o suficiente para te desinibires, mas não regridas a um estado só aceitável para quem tem 18 anos e está num hotel de terceira categoria em Torremolinos.

E agora está na hora de abandonarem com elegância o recinto, acenando adeuses discretos e recebendo em troca olhares maliciosos que vos empurram para o leito legítimo onde os vossos corpos, mais do que prazeres escandalosos, experimentarão a paz do repouso merecido. Poupem as acrobacias e o sexo aeróbico para a lua de mel e, para onde quer que vão, guardem lugar para esta pérola de sabedoria da poeta Adília Lopes: "Um dia estava no café e ouvi dois rapazes a conversar, um deles, casado há pouco tempo, dizia que a lua de mel tinha de ser no Egipto ou no México. Deu-me vontade de rir porque acho possível passar uma lua de mel inesquecível na Praça da Figueira". Eu, que passei a lua de mel na Régua, garanto-te que assim é.

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