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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

25
Jul17

Os olhos azuis do tio Zé

Bruno Vieira Amaral

A alegria é um dom e a felicidade é uma arte. Não sei quem o disse, não me lembro onde terei lido a sentença, se é que a li e não a sonhei ou nela pensei a caminho da praia num dia ventoso, mas se nela acreditarmos, e é tão fácil, quase imperioso, acreditarmos em certos aforismos sedutores, é justo dizer-se que o meu tio Zé tinha o dom da alegria.

Não convivi com ele o suficiente para saber se dominava a arte da felicidade, mas a alegria, sempre mais espontânea e exuberante, detecta-se mais facilmente, enquanto a felicidade, tantas vezes secreta e subterrânea, exige uma sabedoria de vedor de águas, quer para a encontrarmos para nós, quer para a distinguirmos nos outros. Ora, a alegria do tio Zé era tão visível como um desses fenómenos que não deixam dúvidas quanto à sua natureza. Era, desde logo, uma alegria fisionómica, nas suas faces rubicundas, nos seus olhos que lembro azuis, onde até um ar grave adquiria uma certa leveza: nenhuma tristeza, e é impossível passarmos pela vida sem as experimentarmos, lhe terá afluído ao rosto ao ponto de o marcar para sempre.

Das últimas vezes que nos vimos (era meu tio-avô), o tio Zé chorava sempre, mas mesmo essas lágrimas, não sendo de alegria, como quem chora após uma conquista, eram de reconhecimento, bondade e satisfação. O meu caso não era único. No velório, alguém disse que o tio Zé tinha lágrima fácil, era um sentimental. Apesar de sinceras e ditas com a melhor das intenções, algo nestas palavras trai aquela que, para mim, era a essência de um homem, com quem, ao longo da minha vida, terei estado uma dúzia de vezes. Dito daquela forma, parece que o tio Zé era um incontinente lacrimal e chamar-lhe sentimental quando sabemos que o sentimentalismo mais não é do que a encenação do sentimento é um tanto condescendente. Pois acredito que as emoções imediatas do meu tio eram uma manifestação nobre de sentimentos reais e tão próximos quanto se pode estar da expressão física do sentimento sem se cair no sentimentalismo.

Penso e não encontro outra palavra: alegria. Porque limpadas as lágrimas, o tio Zé encaminhava-nos para a cozinha, promovendo um salutar convívio através da partilha dos prazeres da mesa com a comida por ele confeccionada que pouco tinha que ver com dotes culinários, com a sua reconhecida mão para a cozinha: era apenas a alegria de receber, os outros, e de dar, aos outros.

Após a morte da minha avó, a sua irmã mais velha, o tio Zé emocionava-se mais quando me via, como se se reencontrasse não só comigo mas com os mortos que eu lhe evocava. Essas emoções perpassavam naquele abraço forte, suado. São raras as pessoas a quem a nossa presença provoca tantas emoções, mesmo admitindo que se dirijam menos a nós, enquanto indivíduos, do que a tudo aquilo que representamos: a memória de uma irmã, de uma casa, de uma temporada em África.

Na minha infância, o meu tio Zé era aquela casa com uma figueira e um tanque, no fim da mesma rua na Beirã, concelho de Marvão, onde veio a morrer. O tio Zé teve uma morte fulminante de que logo soubemos os pormenores numa dessas narrativas de exorcismo da dor que pontuam os velórios: estava na horta, nas traseiras da casa, a sachar as batatas, e a mulher disse-lhe que viesse para dentro, ao que ele respondeu que ia ficar ainda mais um pouco. Minutos depois, o dono do café em frente da casa viu-o caído no chão e correu para avisar a minha tia. Estava morto.

Creio que a sua morte, cruel para a família, está de acordo com a imagem que dele guardamos pois é-me impossível imaginar aquele homem vital a definhar numa cama ou a morrer aos poucos até que a alegria se esvaísse do seu rosto solar, dos seus lindos olhos que recordo, ainda que não tenha a certeza que fossem, azuis.

17
Jul17

Ulisses e uma tradição antiga

Bruno Vieira Amaral

“As that reference to Tristram Shandy indicates, one of the traditions which Ulysses inhabits is the literary Saturnalian tradition, the home of the unruly, eccentric, learned, comic and satiric works of literature. These are pedantic and anti-pedantic, replete with learning while mocking learning; now they lure us into their fictional worlds, and now they alert us to their fictionality. A Saturnalia was a riotous festival in which slaves and masters changed places; and this literary tradition has qualities of exuberant deliberate disorder, invoking boundaries and anarchically transgressing them. Like a rebellious servant, the author or narrator may be self-revealing instead of being self-effacing, and may expose the devices which are normally concealed, making deliberate breaches of generic and structural decorum. Conventions may be exploited, extended, and exposed as conventions; modes of discourse may jostle on parade; and language may perform acrobatics. Elaborate erudition is often combined with farcical, bawdy and indecent humour, corporeal grossness mocks pedantic solemnity, and apparent piety may be counterpointed by modes of irreverence or scepticism. The Saturnalian tradition is well over 2,400 old, extends through postmodernism to the present day, and is likely to continue for many years to come.”

Cedric Watts

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16
Jul17

A casa e o corpo de Clara

Bruno Vieira Amaral

Há, em Aquarius, dois momentos em que Clara, a personagem de Sónia Braga, se liberta: no mar, mergulhando nas ondas de uma praia do Recife, e em casa, numa dança solitária após uma fracassada tentativa de sexo com um amante que a rejeita ao saber que, por causa de um cancro, Clara tirou a mama direita.

Não é com os filhos, com quem alterna a ternura com a impiedade, nem com as amigas, naquela espécie de riso para espantar os fantasmas que é apenas um biombo que oculta as tristezas, nem com o prostituto que lhe oferece prazer sem sentimento e sem culpa, nem sequer nas discussões com os maus da fita, os homens que lhe querem ficar com a casa, que ela se liberta. É na solidão, na companhia dos elementos primordiais da sua vida: o mar (o filme começa com uma cena noturna na praia), a música (em certos momentos o filme, mais do que pelo enredo, parece ser sustentado pelas canções que o atravessam), o vinho, a casa. Destes elementos, só a água é verdadeiramente primordial, mas a música também é ar e o vinho também é fogo e sangue e a casa também é terra e corpo.

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O filme de Kléber Mendonça Filho pega num tópico arquetípico do western – o indivíduo que vê a sua propriedade cobiçada por alguém mais poderoso – e transforma-o na luta de Clara pela sua casa, pelo seu corpo. É que, neste caso, o apego à casa não se justifica nem pelo valor da propriedade, nem, ao contrário do que Clara diz aos filhos (eles nasceram e foram criados naquela casa), pelo valor sentimental. Ao defender a sua casa, Clara está a defender o seu corpo, esse corpo mutilado do qual ela já abdicou o que tinha de abdicar. Não está disposta a fazer outras cedências.

Nenhuma das agressões que Clara sofre, e sofre várias ao longo do filme, é contra o seu corpo – ninguém lhe bate, ninguém a viola, ninguém abusa dela – mas todos os ataques de que é vítima, todas as ameaças que lhe fazem são, numa dimensão profunda, físicos porque se dirigem à sua vulnerabilidade, ao facto de ser mulher: o amante que a rejeita, o ex-vizinho que a ameaça, o proprietário dos outros apartamentos do edifício que lhe lembra que aquele não é um lugar seguro para uma mulher sozinha. É como um cerco que se vai apertando e que, paradoxalmente, empurra Clara para o único lugar onde ela está a salvo e que ela sabe como defender. A casa, aqui, é o lugar da mulher mas não naquele sentido da expressão “o lugar da mulher é em casa”. O sentido da casa é o de um território do qual a mulher se recusa a ser expulsa e que ela defende com energia e com aquela espécie de fúria justiceira ampliada pelo medo.

No final, quando Clara se vinga, a violência com que o faz é mais simbólica mas não deixa de ser física. Estabelece uma fronteira, um limiar que não pode ser cruzado sem autorização. Veja-se também como, numa cena inicial, Clara deixa os inimigos à entrada, afirmando-se senhora da sua casa e, metaforicamente, do seu corpo: esta é a minha casa, feita de cimento, este é o meu corpo, feito de sangue, mas também, ambos, feitos de música, de vinho, de mar. O corpo de Clara é o mundo de Clara e ela não os quer perder.

26
Jun17

Viver não dá direito a medalhas

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Dezembro de 2016

Quando tinha sete ou oito anos participei numa daquelas caóticas corridas de sacas com que os organizadores das festas do meu bairro julgavam abrilhantar o evento. Após breves segundos na liderança, em que já me imaginava no lugar mais alto do pódio, tropecei, caí e fiquei no chão, a boca cheia de farinha com água e um rebuçado de laranja preso pelos dentes. Os restantes concorrentes, insensíveis à minha má sorte, prosseguiram a prova e eu, muito naturalmente, acabei em último. O pior de tudo é que, de acordo com as regras peregrinas daquela competição, todos tinham direito a medalhas, menos o último classificado. Voltei para casa em circunstâncias penosas, roendo tristemente o rebuçado mas, desde esse dia, criei com as derrotas – e em particular com as minhas derrotas – uma relação intensa que dura até hoje. Confesso, não sem algum exagero sentimental, que tudo o que aprendi na vida, devo-o às minhas derrotas.

Há dias, ao folhear o jornal desportivo no sábado de manhã, ritual acompanhado de sucessivos apelos para que os meus filhos se calassem – apelos sucessivamente ignorados, diga-se – deparei-me com uma fotografia de Fernando Mamede, esse eterno derrotado. Mamede, como habitualmente, chorava.

Para quem não sabe, Fernando Mamede foi um dos maiores atletas portugueses de sempre, recordista mundial dos 10 mil metros nos anos 80, mas que, nas grandes competições, bloqueava invariavelmente. Não em todas as competições, apenas naquelas que garantem a imortalidade e referências menos envergonhadas ou ostensivamente celebratórias (se nenhum jogador do Sport Lisboa e Benfica tiver caspa) nas capas dos jornais desportivos: campeonatos da Europa e do mundo, Jogos Olímpicos. Intratável nos meetings, Mamede chegava aos grandes eventos num estado que nem o Super-Homem depois de cair num poço de kriptonite. Arrancava devagar, dava umas voltas contrariadas à pista, arrastava-se e, por fim, desistia, fugindo pela saída mais próxima.

Dobrei o jornal e, nos dias seguintes, Mamede continuou ao meu lado, derrotado, choroso, a reviver os momentos de angústia, o pavor de andar na frente, no lugar que era dele. No dia 1 de novembro, o Expresso entrevistou-o a propósito do seu sexagésimo-quinto aniversário. Uma vez mais, Mamede repisou as memórias dolorosas, relatou os momentos de frustração, algumas alegrias, a ligação íntima, quase filial, com o professor Moniz Pereira, falou brevemente da relação complicada com Carlos Lopes. De certeza que chorou. A certa altura, recordando episódios longínquos na noite algarvia, disse isto: “Fiz muitos amigos na Albufeira velha, que ainda hoje são meus amigos. E a minha filha tinha um dia especial para ela, que era o domingo. Íamos jantar e depois levava-a para ver as “bolinhas”. Era a bola de espelhos a rodar e as bolinhas no chão. Íamos à discoteca ao domingo. Não estava lá ninguém, mas os donos conheciam-me. Ela entrava e estávamos ali um bocadinho e depois vínhamos para casa.” Ao falar sobre aquele momento de intimidade, Mamede readquiriu a leveza simples e luminosa do homem que voava nas pistas de tartan: o ritual do jantar, depois a ida a uma discoteca vazia, as “bolinhas” no chão, o regresso a casa. Sem pressão, sem a obrigação de vencer, sem a necessidade de estar à altura do que dele se esperava. Um momento triunfal e, no entanto, silencioso, sem testemunhas, sem aplausos, sem cobranças. Apenas dois seres humanos, pai e filha, num instante no final de um domingo, àquela hora em que o vislumbre da semana seguinte nos torna presas fáceis do tédio.

No filme Mystic River, a personagem de Sean Penn recorda a noite em que a mulher morreu e em que ele ficou sozinho com a filha: “os dois sentados na cozinha naquela noite era como se fôssemos as últimas pessoas na terra. Esquecidos. Indesejados.” Ao ler aquele excerto da entrevista de Fernando Mamede, foi assim que os imaginei, a ele e à filha, as duas últimas pessoas na terra, esquecidas, indesejadas, cheias de amor e solidão.

Na vida real, os últimos não têm direito a medalha e o pior é que até os triunfos são muitas vezes obscuros, vividos na solidão, numa discoteca vazia, num domingo deserto, sem direito a medalhas. “Estávamos ali um bocadinho”, disse o homem que, por vezes, parece enclausurado nos seus piores momentos. Quanto tempo demorava aquele bocadinho? A vida toda.

08
Jun17

A conspiração contra nós

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Novembro de 2016:

 

Sala de espera do consultório. Seguro um envelope com os resultados de análises ao sangue. Já os espreitei. Tudo bem, exceto uns valores abaixo do normal. Sou um daqueles homens imperturbáveis a quem “valores alterados” soa como o toque de finados. Ali sentado, a fazer de conta de que não é nada comigo, sinto-me inquestionalvemente moribundo. Olho para as recepcionistas, saudáveis, morenas, prontas a viver até aos 120 anos, e esvai-se o pouco ânimo que me resta. Tusso. Sentimental, despeço-me das cadeiras, do balcão, dos panfletos em cima de uma mesa e das revistas de há três meses. Despeço-me de Fernanda Serrano, despeço-me de Sara Matos, despeço-me dos irmãos Carreira que pregaram um calote a alguém. Adeus, adeus. Uma das assistentes aproxima-se: “Sr. Florival Serrabulho!” Sorrio. Que nome genial! Mas, afinal, estou a rir-me de quê? Indiferentes ao meu riso, dentro de mim há legiões de eosinófilos, basófilos e plaquetas a conspirar contra a minha pessoa, contra eles próprios. “Ri-te, ri-te”, parecem dizer. Pior, não dizem nada, limitam-se a seguir o seu caminho irracional, ignorando as minhas alegrias, pensamentos, sorrisos.

Em A Doença como Metáfora, Susan Sontag alertou-nos contra as “fantasias punitivas ou sentimentais” que construímos acerca das doenças. Fantasias que até homens de inteligência superior criaram, como Schopenhauer que dizia que a “vontade apresenta-se como um corpo organizado e a manifestação da doença significa que a própria vontade está doente.” Uma vontade saudável teria “poderes ditatoriais capazes de subjugar as forças rebeldes” que, no interior do nosso corpo, conspiram para nos derrubar. Quantas vezes não ouvimos falar de doentes como “guerreiros” que “travam batalhas” contra um “inimigo”? Os que vencem a doença são fortes, embora se tenha algum pudor em classificar como fracos os que a ela sucumbem. A humanização da doença tem o único propósito de a tornar compreensível e, como tal, “combatível”. Se os agentes patogénicos são motivados por uma intenção – a de me atacar – eu posso responder-lhes com a intenção contrária – a de me defender. Passa a ser uma luta entre duas vontades. E assim, de uma penada, temos uma narrativa que responde à pergunta de qualquer doente – “porquê eu?” – e aumenta, ainda que subjetivamente, as nossas possibilidades de salvação. Quando nos acontece o mesmo que a Ivan Ilitch, quando sentimos que qualquer coisa horrível se passa no nosso interior, a forma de maquilhar a fealdade é atribuir-lhe um rosto humano, uma intenção que, embora malévola, reconheçamos como afim à nossa humanidade.

Finalmente, sou chamado. Levanto-me a custo, as pernas pesam-me toneladas, o corredor parece fechar-se sobre mim. Entro e a médica recebe-me com um sorriso luminoso. “Então o que o traz por cá?” (é claro que a médica não me falou nestes termos, devo ter lido isto no Retalhos da Vida de um Médico). É triste ter de explicar o meu incomensurável sentimento de derrota perante a vida, as saudades antecipadas que já tenho do mundo todo, incluindo das pessoas que me maltrataram e que agora, nesta agonia, relembro com um certo carinho fraternal. “Ó doutora, então não basta olhar para mim para ver logo o estado em que me encontro?” (também não lhe disse isto, é claro, em vez disso, falei-lhe de umas tonturas que me levaram a fazer análises e de uma dor no pé que, descobri na net, é capaz de ser fascite plantar, “não concorda, doutora?”. Dê-se acesso ilimitado à internet a um hipocondríaco e teremos um eterno miserável. Cada dor de cabeça é um tumor, cada espirro, uma pneumonia, cada pontada nas costas, uma doença mortal a fazer o seu primeiro e fatal anúncio.)

A médica olha para os resultados das análises e eu espio-lhe as reacções. Não me tente enganar, doutora. “Está tudo bem com as análises. Há só aqui uns valores mais baixos mas nada de preocupante.” Nada de preocupante, doutora? Tem a certeza? O Ivan Ilitch também dizia que aquilo era só uma dorzinha e veja lá o que lhe aconteceu. “Sim, nada de preocupante.” Quero ouvir outra vez essas harpas celestiais: “nada de preocupante.” E saio pela porta aos pulinhos, e pego na mão de uma senhora que aguarda a sua vez e danço com ela pelos corredores, e voo para o balcão e faço o meu número à Gene Kelly. Nada de preocupante, mundo. Nada de preocupante, pessoas. Olho para a recepcionista e já não a invejo. Lá fora, o sol ainda brilha. Como são negros os nossos terrores, como são doces as nossas fantasias.

16
Mai17

A Voz de um Homem

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Outubro de 2016:

Há uns anos, sete, caso haja entre vós um adepto da precisão, ofereceram-me um livro, uma escandalosa biografia, devidamente inautorizada, de Marlon Brando. O título em português era faceto: Brando mas pouco. Podia sugerir um louco, um furioso, um demente: “vejam como este homem de brandura nominal é, afinal, um selvagem de pleno direito.” O título original era mais específico: Brando Unzipped. Eu, agradecido pelo presente, espreitei escrupulosamente para a braguilha aberta do actor. Ao fim de cento e cinquenta páginas sentia-me exausto pela sucessão de orgias, taras, bizarrias e bestialidade. A única personagem merecedora de compaixão era um pato alegadamente sodomizado por uma celebridade, talvez o próprio Brando, já não sei. Perdoem-me a inexactidão mas apaguei da memória certos pormenores. Há um limite para lá do qual o escândalo se torna desinteressante e o relato de um bacanal pode ser tão soporífero como certas páginas de Viagem a Itália, de Goethe.

O homem ali retratado era plano e superficial, apenas corpo. Uma máquina sôfrega e, apesar das múltiplas variáveis sexuais, quase sem imaginação. É verdade que, nos filmes, Brando era corpo, aquela masculinidade intensa e ameaçadora, o género de homem por quem uma irmãzinha imaculada renunciaria alegremente aos votos de castidade. Mas, claro, era muito mais do que isso. Era também uma vulnerabilidade que, antes dele, não se associava aos machos de Hollywood. Dizem que foi Stella Adler, a professora de representação e discípula de Constantin Stanilavsky (o Rasputine do Método), quem trouxe à superfície esse núcleo de fragilidade, essa, digamos, verdade masculina, inédita em cinema. É possível, mas prefiro acreditar que, no momento em que Brando chegou a Nova Iorque, já trazia com ele os fundamentos da sua futura grandeza: a revolta latente misturada com uma necessidade absoluta e tristíssima de consolo. “I coulda been a contender”: quem, a não ser Brando, poderia assumir tão clamorosa e triunfalmente o fracasso?

Bem, regresso ao tal livro que, por uma questão de higiene e sanidade, abandonei a meio. Não duvidando da veracidade dos factos ali relatados, concluí que não me interessavam. Culpa minha? Culpa do autor do livro? Culpa do próprio Brando? Mistérios que não me preocupei em decifrar. Então, sete anos depois, no dia do meu trigésimo oitavo aniversário, a minha mulher ofereceu-me um DVD, “Listen to me Marlon”, um documentário sobre o actor (o livro também me tinha sido oferecido pela minha mulher quando ainda namorávamos, se me é permitido o arcaísmo). O tempo passou e o objecto permaneceu intacto, envolto no plástico protector, em cima da estante. Até que, semanas atrás, num dessas inspirações súbitas contra a rotina que animam regularmente a vida familiar, declarei: “hoje vamos ver um filme!” A declaração foi recebida com contentamento pela minha mulher e a condescendência infantil da minha filha. O meu benjamin, de quinze meses, continuou absorto na tarefa de mastigar toalhitas.

Quando finalmente conseguimos adormecer as crianças, sentámo-nos e, durante uma hora e meia, fomos reféns da voz de Brando, dos seus sonhos de tranquilidade e do duro despertar das tragédias, do refúgio que procurou no Taiti, essa ilha para onde também o pintor Paul Gauguin tinha fugido e onde o mundo de Brando ruiu, da relação magoada com o pai e desse momento assombroso em que, em tribunal, na presença de um juiz, Brando reconhece que ele próprio terá falhado enquanto pai. Sem cabeças falantes, apenas com recurso às inúmeras gravações áudio deixadas pelo actor e a imagens de arquivo, o filme leva-nos na esteira daquela voz que, de início, se confunde com a voz das múltiplas personagens que Brando encarnou (a voz de Stan Kowalski, a voz de Terry Malloy, a voz de don Vito Corleone, a voz do coronel Kurtz). Perto do final, pressentimos que a voz é a de um homem, um só homem, e que esse homem ainda é um menino, um menino que caminha no escuro e tenta domar as trevas com a luz débil dessa voz. A voz de Marlon Brando, Jr.

26
Fev17

Verão indiano (quarta parte)

Bruno Vieira Amaral

Antes de voltarmos ao festival, passei pelo hotel para tomar um duche e assim libertar-me da película de fuligem que se colara à minha pele. Deitei-me na cama, exausto, e pedi uma sanduíche de frango e um café (“black coffee, please”). Esta pausa inevitável fez-me perder, percebi depois, um dos momentos altos da programação do festival, a actuação de Leela Samson, uma das mais conceituadas e admiradas dançarinas e coreógrafas de Bharatanatyam (uma dança clássica indiana). Deixo-vos aqui uma pequena amostra da arte de Samson. (Tenham em atenção que cada gesto e cada movimento é intencional e tem um significado específico.)

 

 

Quando cheguei, o público já estava em debandada e só me restava ir para o Food Court, desta vez de barriga aconchegada. Enquanto esperava, um senhor aproximou-se de mim e meteu conversa. Era um dos convidados do festival, que estava ali para falar sobre a literatura da partição, literatura escrita na altura ou sobre os terríveis acontecimentos do período em que a Índia e o Paquistão se separaram. Tarun K. Saint já publicou vários livros sobre o tema, mas estava mais virado para falar sobre Portugal, a literatura portuguesa (Saramago, claro, cuja obra conhecia bastante bem), a Europa, o Brexit e assim decorreu a agradável conversa, tornada ainda mais agradável por me ter servido de guia naquela refeição, aconselhando-me os alimentos mais amenos para o meu massacrado estômago. Ao fim da noite, regressámos ao hotel, não sem antes os membros da comitiva que não se tinham precavido com repelente terem sido atacados por brigadas esfomeadas de mosquitos indianos. No bar do hotel, serviram-me então aquele vinho horrendo que fui obrigado a trocar por um anódino gin tónico.

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No dia seguinte, o último do festival, tivemos uma sessão de leitura. Como me tinham dito que cada um de nós (éramos três) só teria dez minutos, li dois excertos breves do meu romance. O Javier aproveitou o facto de ser o último para ultrapassar em mais de vinte minutos o tempo estipulado com a leitura de um excerto do seu livro sobre o Rio de Janeiro. A moderadora tentou interrompê-lo por várias vezes mas ele estava a milhares de quilómetros de distância, na cidade maravilhosa cheia de encantos mil, a discorrer sobre Manuel Puig, escritor argentino que também viveu no Rio, sobre filmes e sobre uma bizarra ida doméstica ao cinema num prédio anónimo numa pacata rua carioca. Ainda bem que o Javier infringiu as rígidas regras da organização.

Como tinha voo marcado para Goa às três da tarde de segunda-feira, despedi-me de Javier nessa manhã, ao pequeno-almoço. Disse-me que as portas da sua casa de Madrid estavam sempre abertas e eu retribuí-lhe a gentileza, se é que disponibilizar um quarto no meu apartamento na Baixa da Banheira equivale neste caso a uma retribuição. Quando fui fazer o check-out, apresentaram-me uma factura de um valor absurdo que, pelas minhas contas, daria para me meter num rickshaw e passear ininterruptamente por Hyderabad até ao final do ano. Pedi para esclarecerem o assunto com a organização, mas no meu íntimo temia que aquela saborosa sanduíche de frango estivesse a amargar a minha estadia. Esclarecido o equívoco, paguei as minhas contas e segui para o aeroporto.

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A viagem para Goa não durou mais de uma hora mas foi num daqueles aviões movidos a hélice que obrigam os passageiros a espreitar constantemente pela janela para confirmar que as ventoinhas não param de repente. Como paguei mais 500 rupias, tive direito a um dos lugares da frente, para poder esticar as pernas, e a uma pequena refeição. Pude comprovar que a altitude não interfere em nada com o grau de picante da comida. A chegada a Goa foi como sair de uma sauna para entrar num forno. Eu tinha levado um casaco leve, de linho, que, no curto trajecto entre a pista e o edifício, me pesou como um sobretudo. Seguindo as indicações do Delfim, do Instituto Camões, requisitei um táxi pré-pago à saída do aeroporto. Entreguei um papelinho com a indicação do destino, mas como a viagem foi muito mais demorada do que eu pensava, fui o caminho todo a suspeitar que teria havido um engano e que ia acabar o dia sentado na berma da estrada, rodeado de uma quantidade de palmeiras que só me lembravam A Cavalgada das Valquírias e Robert Duvall a despejar Napalm fictício em florestas supostamente vietnamitas mas, na verdade, filipinas (isto anda tudo ligado). Contrariando os meus piores receios, o motorista deixou-me tranquilamente à porta do Panjim Inn e, depois de me instalar e de tomar um duche, desci para a esplanada, onde fiquei a beber uma Kingfisher enquanto esperava pelo Delfim, com quem tinha combinado jantar às oito horas.

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Na mesa ao lado, um senhor bebia uma Coca-Cola e lia Nine Lives, um livro do historiador escocês William Dalrymple (não sei porquê, pensei que fosse um livro de espionagem ou um romance histórico, mas Nine Lives: In Search of the Sacred in Modern India, fiquei a saber depois, foi um enorme sucesso na Índia, tendo chegado ao topo da tabela de vendas de não-ficção). Nos dias que ali permaneci, encontrei-o sempre, a horas diferentes, a beber a sua cola e a ler o seu Dalrymple, não falando com mais ninguém a não ser com os empregados. Depois de alguns dias passados numa cidade de sete milhões de habitantes (na verdade, nunca nos sentimos realmente rodeados de sete milhões de seres humanos, o que há é um ritmo e um rumor permanentes que nos envolvem e que traduzem para a nossa limitada capacidade de sentir o que é esse número inapreensível e abstracto de sete milhões de almas), a visão de um homem sozinho numa esplanada a beber um refrigerante enquanto lê um livro é perfeitamente alienígena e tão frágil que até a nossa presença silenciosa representa uma ameaça à delicadeza do quadro. Na outra mesa, estavam duas senhoras. Portuguesas. Com os cabelos ainda molhados do banho, roupa branca e leve, um pouco morenas, tinham o ar distendido de final de um dia de praia ou de caminhada. Fumavam, conversavam e, tal como eu, bebiam Kingfisher. Ao contrário do que costumo fazer nestas ocasiões, não tentei perceber o que estavam a dizer, não por pudor ou respeito, mas por um sincero e inapelável desinteresse.

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O Delfim chegou acompanhado pelo escritor Rui Zink e por uma amiga, Astrid Ghosh. “Uma viagem de mais de oito mil quilómetros e vou jantar com o Rui Zink”, pensei. O jantar foi agradável – comi um suculento bife medium rear sem vestígios de picante. O Rui Zink, aparentemente um especialista na matéria, deu-me generosos conselhos sobre a melhor forma de amenizar as dores nas costas sem recurso a morfina. No final do jantar, falei com Astrid sobre a literatura da partição e ela ficou de me recomendar alguns dos autores mais importantes. Muitos deles, como foi o caso de Saadat Hassan Manto, escreveram sobretudo contos. Podem encontrar na net a tradução inglesa de “Cold Flesh” para ficarem com uma ideia dos temas e da qualidade. Astrid garantiu-me que a partição e tudo o que sucedeu depois continua a ser uma ferida aberta na sociedade indiana. Há anos, houve um movimento para se fazer um museu dedicado ao tema, mas foi impossível chegar a um consenso: todos os lados envolvidos na questão cometeram atrocidades, nenhum pode reclamar para si o papel exclusivo de vítima e, por isso, preferem todos – hindus, sikhs e muçulmanos, indianos e paquistaneses – esquecer o que se passou. Muitos dos autores que viveram aqueles tempos só foram capazes de escrever sobre o assunto muitos anos mais tarde, já perto do fim da vida.

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Acordei cedo na terça-feira para poder passear a horas em que o risco de uma insolação fosse menor e esperando não ser traído pelas dores nas costas que tinham atingido um nível incapacitante. Nas escadarias da Igreja da Imaculada Conceição, um desses vendedores que se encontram em qualquer cidade onde haja um turista perseguiu-me pelos degraus até vencer a minha resistência e vender-me por cem rupias uma pulseira que se desdobrava magicamente, como um artefacto criado pelas mãos dos antigos sábios da Macedónia. Animado pelo sucesso da primeira investida comercial, o rapaz tratou logo de me apresentar uns conjuntos de moedas e selos antigos, em bolsas de capa de veludo, pelos quais não pedia mais de 1500 rupias. Não querendo pôr em causa a origem e o valor dos produtos, confesso que me impressionou a versatilidade com que o vendedor passou da área da bijuteria, com as suas mirabolantes e flexíveis pulseiras, para as esferas mais elevadas da filatelia e da numismática. Disse-lhe que embora tivesse todo o interesse em adquirir aqueles inestimáveis tesouros, não dispunha no momento dos fundos para o fazer pelo que teríamos de combinar uma hora, da parte da tarde, para completar a transacção. Explicou-me com ar desgostoso que à tarde costumava estar já a muitos quilómetros dali e que, para minha conveniência, aceitaria dar o negócio por fechado a troco de míseras 800 rupias. Inconformado com a minha recusa insistente, ainda baixou para as 500 rupias e desconfio que, se outra fosse a minha tendência para o regateio, teria vindo para Portugal com selos e moedas indianos a troco da pulseira que o sujeito há pouco me vendera.

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Caminhei até à marginal, onde o trânsito é mais intenso, mesmo que, em comparação com o de Hyderabad, pareça o de uma aldeia. Pangim fica nas margens do estuário do rio Mandovi. Os ferrys vêm e vão para Alto-Betim Porvorim apinhados de gente e de motorizadas. Não muito longe da margem, há vários barcos-casino ancorados. Foi aqui que vi (e filmei) provavelmente a cena mais bela da minha estadia na Índia. Um cão vadio a banhar-se alegremente nas águas do Mandovi e, depois, a correr pelas ruas com a satisfação mais que pura do animal livre. Subjugados pelos códigos de comportamento a que aderimos na esperança de sermos recompensados sabe-se lá por quem, testemunhar a liberdade genuína de um cão faz-nos invejá-lo para lá de qualquer razoabilidade. Ali perto, há um memorial de homenagem às vítimas da tragédia da lancha Goa, ocorrida em Dezembro de 1901. Pede-se a quem passar por ali que reze pelo eterno descanso dos que pereceram e é isso que muitas pessoas que saem do ferry fazem, aproximando-se do memorial e persignando-se.

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Fui ao Coffee Day, estabelecimento do género Starbucks, que o Delfim me tinha recomendado na noite anterior. Bebi um café duplo. Numa das mesas estavam um homem e uma mulher a consultar facturas e a fazer contas em calculadoras. Presumi que fossem os proprietários e presumi igualmente que aquele negócio fosse um franchising, não só porque utilizavam o café como escritório como o faziam como se não houvesse ninguém à volta. Já contei noutro lugar a minha vida como proprietário de um bar. Um dos meus poucos clientes era um tipo galês, impecável, com o cinematográfico nome de Ray Cherry, que me disse que o que eu vendia ali não eram bebidas nem sandes mistas, era uma experiência. Esta ideia de se vender uma experiência, um “conceito”, tem sido abastardada e papagueada por muitos imbecis que querem envernizar as suas ideias pobres, mas não deixa de ser verdade. Mesmo o café suburbano mais sórdido vende mais que os produtos pelos quais o cliente paga e que consome, vende o ambiente, o exotismo, a própria sordidez se nada mais tiver para oferecer. Ao espalharem facturas pelas mesas que deveriam estar disponíveis para os clientes, mesmo que estes não entrassem, os presumíveis empresários estavam a estragar a experiência que deveriam estar a vender. A senhora, talvez irlandesa, que se sentou na mesa ao lado da minha a beber um “caffè macchiato”, deve ter pensado o mesmo, deduzi eu pelos olhares mais judicativos que intrigados que lançava para a mesa empresarial, repleta de guias de remessa e demais artefactos contabilísticos. Nada que incomodasse os dois casais de jovens russos, corpulentos, eles, atléticas, as raparigas, que respiravam qualquer coisa de ubermenschiano e idiótico que só os descendentes imediatos de novos-ricos exprimem completamente: um vigor físico que a geração anterior não conheceu misturado com um desenvolvimento intelectual incipiente. São os herdeiros de fortunas recentes, sofrem da mesma falta de passado dos pais mas exibem a confiança ameaçadora de quem nunca, ao contrário dos progenitores, teve de baixar a cabeça. Esta postura deu a impressão de ocuparem muito mais espaço do que aquele que fisicamente ocupavam. Encheram o café de uma prepotência atlética e, talvez tenha sonhado, mas vi-os soprar, com o fôlego brutal das suas amplas caixas torácicas, as facturas da mesa dos proprietários que tentaram apanhar comicamente os papéis esvoaçantes.

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24
Fev17

Verão indiano (terceira parte)

Bruno Vieira Amaral

Na manhã de sexta-feira assisti à inauguração do festival, que decorreu nas instalações da escola pública, onde se destaca um edifício monumental que tem à entrada uma placa com o desenho de uma águia e a inscrição “Shaheen” – “Be Vigilant”. Depois de alguns percalços, os voluntariosos voluntários distribuíram os sacos e os dísticos destinados a cada um dos convidados. O céu estava nublado e já se fazia sentir um calor opressivo. Ainda não havia muita gente a passear pelo recinto mas a tenda principal estava cheia. No palco estavam sentadas as figuras de proa, incluindo um responsável político do estado de Telangana, o orador convidado para fazer o discurso de abertura e a senhora embaixadora das Filipinas na Índia, Teresita Daza. Os directores deram as boas-vindas a todos e gabaram o festival e um coro de jovens surdos-mudos cantou o hino nacional da Índia num perfeito uníssono gestual. O discurso de abertura ficou a cargo do célebre poeta e crítico Ashok Vajpeyi de que eu nunca tinha ouvido falar e que presumo seja desconhecido da maioria dos leitores portugueses. O discurso, apesar de centrado nas virtudes da literatura, teve um forte conteúdo político, amenizado por (ou camuflado sob) um sorriso astuto e gaiato, nos antípodas da presunção que certos escritores (alguns portugueses) usam quando em entrevistas, festivais e cerimónias de entregas de prémios falam de política e com que recolhem aplausos generalizados e automáticos e, paradoxalmente, são gregariamente celebrados como dissidentes, as vozes do contra, um contra que segue a corrente.

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Tão sereno como contundente, o poeta falou das razões para ter devolvido, em Janeiro de 2016, o doutoramento Honoris Causa que lhe tinha sido atribuído pela Universidade Central de Hyderabad. A razão principal foi a atitude anti-dalit (os dalits são o que os escritos bramânicos classificam de “intocáveis”) das autoridades que terá estado na origem do suicídio de um aluno dalit, Rohit Vemula, no campus da universidade de Hyderabad. Na sequência da decisão de Vajpeyi, e inspirados por ele, muitos outros escritores e intelectuais devolveram em protesto prémios e condecorações às instituições oficiais que lhos tinham atribuído. Após este interlúdio político, que deixou alguns elementos da plateia com comichão no rabo, o poeta voltou à literatura e terminou a intervenção com a leitura de alguns poemas em inglês e, depois de instado por um elemento do público, em hindi.

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(Em poucos minutos, ficaram patentes algumas das tensões que atravessam a sociedade indiana, dos efeitos da política de direita do primeiro-ministro Narendra Modi, aos movimentos de contestação estudantil que, regra geral, estão na vanguarda de reivindicações que vão muito para além dos interesses imediatos dos estudantes e se estendem à defesa das culturas minoritárias e ao ataque à continuada política de discriminação das castas inferiores. Apesar de o ambiente dos festivais literários não ser propriamente favorável a um político como Modi (ao qual mais de uma pessoa se referiu como o Trump indiano), fiquei com a ideia de que a avaliação do seu desempenho enquanto primeiro-ministro dependerá em larga medida do desempenho económico da Índia e que muitos estão dispostos a desvalorizar os aspectos mais estritamente sociais e culturais desde que o crescimento não abrande. Isto foi particularmente visível na reacção a uma das medidas mais polémicas de Modi, a decisão de, de um dia para o outro, retirar de circulação as notas de 500 e 1000 rupias, com a intenção de obrigar a uma maior utilização dos pagamentos com cartão, atacar a economia informal e reduzir a prevalência do chamado “dinheiro negro”. A medida drástica teve efeitos catastróficos, com as restrições ao montante dos levantamentos a causarem incómodos generalizados numa sociedade em que o peso da economia informal, como já referi, é enorme. Mas, ao fim de alguns meses, a maioria dos indianos, segundo as sondagens mais recentes, aprova a medida do primeiro-ministro, embora haja quem critique a forma como foi implementada. O certo é que, neste momento, a reeleição de Modi é o cenário mais provável para as próximas eleições e nem mesmo uma difícil união de toda a oposição poderá ser suficiente para o evitar.)

No final da sessão de abertura, os convidados acenderam uma lamparina que supostamente terá permanecido acesa durante o resto do festival, facto que não me preocupei em confirmar. De saída da tenda, assistimos à actuação de um grupo folclórico local, exclusivamente constituído por homens de faces pintadas e ornados com penas e colares.

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(Há muitos homens na Índia. Por exemplo, em todos os hotéis em que fiquei, as únicas funcionárias estavam acantonadas nas recepções. Eram os homens que faziam a limpeza dos quartos. Ali, no meio inabitual das arrumações, entre baldes, panos e limpa-vidros, aqueles homens tinham algo de assexuado, como eunucos. Quando os via atrás de uma porta entreaberta, pareciam-me sempre em cochichos conspirativos de gineceu. Exibiam uma certa irreverência, no que esta tem de boçal, enquanto a maioria das mulheres, quer pelo modo de se passearem pelas ruas, algumas protegidas por sombrinhas, quer pelo modo delicado de segurarem um pedaço de dosa com a ponta dos dedos e levá-lo elegantemente à boca, desprendiam uma certa seriedade, no que esta tem de digno, uma virtude patrícia de que só elas guardam ainda o segredo. Um, que varria os corredores alcatifados, apresentava os sintomas ambivalentes de cansaço e determinação de quem faz uma tarefa que não percebe e que, apesar disso, está na disposição de continuar a executar até ao fim dos seus dias. Lembro-me do som que a minha mãe fazia ao varrer a casa e que, quer se afastasse quer se aproximasse da divisão onde me encontrava, permitia adivinhar, pelo ritmo, se faltava muito, a quantidade de lixo já recolhida e se, no meio do pó, havia algum pequeno objecto sólido, talvez metálico, denunciado pelo ruído que fazia ao deslizar pelo plástico da pá. Já a vassoura do empregado indiano era mais do género pendular, como se marcasse o tempo num movimento perpétuo.)

Muita gente tirou fotografias e filmou o momento, mas devo confessar que fiquei mais impressionado quando, após o final, vi o grupo numa zona mais sossegada, sentados a conversar à sombra de uma árvore, ainda com os trajes tradicionais, como se tivessem saído das personagens dançantes e destas não restasse mais do que uma camada exterior.

 

Os meus enganos e percepções erradas acerca da comida indiana sucederam-se ao ritmo das refeições e dei por mim a optar por uma dieta de muffins de caju e água mineral. Apesar de tudo, o jantar de sexta-feira foi, tenho de o confessar, glamouroso, realizado no amplo terraço do hotel, com mesas primorosamente decoradas, cadeiras de plástico com forros brancos e laços grenás. Para gáudio de uma parte da comitiva que me incluía a mim e aos dois espanhóis (um escritor e um agente literário) havia bebidas alcoólicas, whiskey, vodka, cervejas locais e internacionais e um vinho tinto cuja origem não consegui apurar mas de que tive muitas saudades quando, no dia seguinte, me serviram um copo no bar que me trouxe à memória o saudoso Machadinho que o meu avô quotidianamente bebia. Javier, o escritor espanhol apaixonado pelo Rio de Janeiro e com o ar triste de quem não vê o seu amor correspondido, falou em vino pellejón e não serei eu a encontrar definição mais feliz (para a escritora galesa que nos acompanhava, Javier traduziu a expressão por “wine to pick a fight”, que ilustra bem o que se perde na tradução quando nos encontramos nestes festivais).

No sábado foi a nossa vez – escritores em representação do Velho Continente (como é bonita esta expressão, ainda que geologicamente disparatada) – de subirmos ao palco. A sessão não foi das mais concorridas, como era de esperar, mas mesmo assim havia mais de trinta pessoas na plateia. Mostraram-se interessadas na literatura europeia, mesmo que a ideia que dela têm seja a de uma literatura homogénea. Aos olhos da maioria dos indianos, até mesmo aos olhos da maioria dos que assistem a festivais literários, a literatura europeia é tão longínqua e exótica que uma leitora veio falar connosco sobre Elena Ferrante com aquele entusiasmo familiar de quem acha que qualquer escritor vindo da Europa certamente já se terá cruzado com a misteriosa autora italiana. Esta simpática leitora, que até tinha lido uns excertos do meu livro em inglês, vê-nos como uma indistinta amálgama paroquial de escritores, o que é justo e bom porque nos ajuda a relativizar as coisas.

Após a sessão, apanhámos dois rickshaws para o centro da cidade, numa viagem de uma hora pelas ruas mais poluídas do mundo que conheço, durante a qual, enquanto inalávamos espessas golfadas de dióxido de carbono, discutimos os méritos de Elena Ferrante, Knausgard e Bolaño – chegando eu à conclusão de que o melhor da obra do chileno eram os romances breves como Estrela Distante. O mais incrível é que, no meio daquele caos, com peões a atravessar a rua sem aviso e em que o trânsito circula sem outras regras que não as de um tipo particular de bom senso desenvolvido ao fim de anos de experiência e de uma perícia tão entranhada que já nem pode ser classificada de perícia, mas de aptidão natural, e a de buzinar tanto quanto possível e sinalizar uma mudança de direcção de qualquer maneira imaginável excepto com o pisca, o mais incrível, dizia eu, é que os dois rickshaws chegaram ao destino exactamente no mesmo segundo. Foi o Javier que me chamou a atenção para esse facto transcendente só possível de ser explicado – por nós, ocidentais deslocados – por um sistema de orientação espacial idêntico ao das abelhas, como se os condutores de rickshaw se guiassem por uma espécie de comunicação não-verbal, de eco-localização, que para qualquer outro ser humano é indecifrável e misteriosa. Ainda mais admirável é a relutância que estes mártires da poluição urbana demonstram em conversar com os clientes, além da indispensável negociação inicial onde se dá a conhecer o destino pretendido e se combina a tarifa a aplicar. Um deles de vez em quando trauteava uma melodia, mas os restantes estavam entrincheirados num mutismo militante e, diria mesmo, monástico.

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Imaginei que o condutor de rickshaw, ao tomar a fatídica decisão de enveredar por esta profissão, seja obrigado a deixar para trás mulher e filhos, entrando naquele favo móvel, naquela cela apícola, com a resignação ardente do homem que se recolhe num mosteiro. Nenhum cedeu à tentação de se armar em guia e de se pôr a descrever os locais por onde íamos passando, talvez porque esse género de atrevimento não seja aconselhável quando se conduz o mais vulnerável dos veículos pelas artérias congestionadas de Hyderabad. Mas nem com tal concentração Shaolin foi possível evitar um pequeno incidente. O condutor do trauteio guinou bruscamente à direita para se desviar de uma carrinha Goods Carrier que travara subitamente e, nesse preciso momento, interrompeu a melodia bucólica que talvez lhe lembrasse a aldeia natal e soltou um gemido que me permito traduzir por “já me fodi”, embatendo tão suavemente quanto possível na traseira de outro rickshaw, com um autocolante que pedia encarecidamente ao condutor que fizesse soar a buzina. Durante alguns segundos, poucos, devo dizer, pensei em preenchimentos de declarações amigáveis mas o embate, além de ter provocado um silêncio imaginário na minha cabeça, não perturbou ninguém e os veículos lá prosseguiram como se nada tivesse acontecido, não tendo havido sequer lugar a um pedido de desculpas como aqueles que dirigíamos ao condutor de um carrinho de choque contra o qual embatíamos involuntariamente. Acrescento que nem os próprios polícias sinaleiros – espécie já extinta nas nossas ruas – parecem convencidos da sua utilidade. Em certas ocasiões, vi um ou outro a erguer-se de um estupor fumarento, soprar um apito branco e tentar imprimir alguma ordem, embora alguns condutores, sem a certeza de que as indicações gestuais fossem de cumprimento obrigatório, avançassem à revelia da autoridade com aquilo que em Hyderabad será prudência mas que em qualquer outro lugar do mundo é tentativa de suicídio.

Para entrarmos na Mesquita de Mecca, a uma centena de metros do Charminar, passámos por um detector de metais que apitava sempre que alguém passava, deixámos os sapatos à entrada e caminhámos sobre lajes atapetadas com uma camada de merda já ressequida de pombos fiéis que fizeram do lugar de adoração a sua casa. As mulheres podem entrar, desde que decentemente vestidas, e há quem forneça gratuitamente conselhos às estrangeiras sobre a forma mais adequada de cruzar o xaile sobre o peito ou de cobrir a cabeça com um lenço. Era hora da oração e lá dentro centenas de homens – velhos, jovens, adolescentes e crianças – executavam preciosamente a coreografia da submissão, no que eram imitados por algumas mulheres mais zelosas no exterior. No pátio fronteiro, havia muitas crianças a correr e que, incentivadas pelos familiares, se lançaram para os braços da escritora galesa para tirarem fotografias. Havia também homens a fazer as abluções num pequeno lago ao lado do qual se encontram os túmulos dos sultões e para onde fomos encaminhados por um velho vizir que nos levou até à presença de um homem sentado em posição de lótus, a queimar pétalas e incenso. Com um sorriso alheado e santo, abençoou-nos com um pouco de cinza na testa. A bênção custou-nos cem rupias a cada um. A voz do muezim a derramar-se pelos altifalantes era menos lúgubre da que ouvira no dia anterior perto do recinto do festival, um lamento soturno só comparável em tristeza religiosa ao órgão de uma igreja evangélica na Morelena que, numa noite já muito distante, visitei na companhia do meu tio.

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22
Fev17

Verão indiano (segunda parte)

Bruno Vieira Amaral

Quando saímos do palácio, mergulhámos com uma boa dose de inconsciência no caos de Hyderabad, caminhando pela rua do Laad Bazaar (o famoso mercado de braceletes), uma das quatro ruas que conduz ao Charminar. Para lá chegarmos, tivemos de atravessar a estrada, actividade que, como desporto radical, não fica a dever nada ao bungee-jumping. Se algum forasteiro tiver a peregrina ideia de aguardar que os veículos parem para que ele passe, é muito provável que, daqui por duas décadas, ainda esteja no mesmo sítio. Observando atentamente o guia, percebi que a única solução para chegar ao outro lado era a de aproveitar uma breve interrupção ou abrandamento na circulação para me meter entre os veículos, fazer o gesto universal de clemência unindo as duas mãos na direcção dos condutores ou usar um dos filipinos como escudo humano. Quando cheguei ao outro lado, senti-me um judeu após atravessar o Mar Vermelho e olhei com alguma superioridade para os elementos do grupo que tinham ficado para trás e que não tinham sido tão lestos quanto eu a descodificar os segredos essenciais à sobrevivência dos peões em Hyderabad.

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Descobri que, na rua do mercado, que de início pensei ser pedonal, também circulavam velocípedes. Obtive a informação quando uma mota passou a menos de cinco centímetros da minha pessoa, anunciando-se de forma típica com uma buzinadela que, por instantes, me desorientou. Os condutores só me pareceram inclementes até ao momento em que me vi rodeado de transeuntes implacáveis, nada sensíveis aos meus propósitos de registar para a posteridade aquela experiência e nitidamente impacientes quando eu, embasbacado com a multiplicidade de cores das lojas de roupas e joalharias, interrompia a caminhada e lhes obstruía o caminho. Por mais de uma vez, fui alvo de imprecações que, graças ao meu desconhecimento da língua local, não pude apreciar em toda a plenitude.

Para piorar tudo, a rua estava em obras. A certa altura, deparei-me com um homem enfiado num buraco, rodeado por outros quatro ou cinco. Não percebi se estavam a reparar uma conduta ou se estavam a tentar resgatá-lo. Para onde quer que me virasse, via qualquer coisa invulgar. Era impossível traduzir com exactidão tudo aquilo recorrendo unicamente aos utensílios rudimentares da minha pouca experiência noutros países. Em vez disso, deixei-me simplesmente arrastar, caminhando pela multidão ao mesmo ritmo dos autóctones mas sem fazer a mínima ideia do meu destino, perdendo por vezes de vista os outros elementos do grupo, mantendo como único ponto de referência o velho guia que, sem nada que o distinguisse, sem nenhum objecto que o identificasse, lá ia levantando misericordiosamente o braço na esperança de que o reconhecêssemos para que nenhum dos convidados do Festival Literário de Hyderabad fosse encontrado semanas depois a regatear braceletes ou transformado em estátua viva à espera de atravessar a rua.  

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O Charminar (que quer dizer “quatro torres”) também estava em obras de restauro, engalanado com aqueles andaimes arcaicos aparentemente feitos de canas, pelo que optámos por ficar em baixo a observá-lo muito respeitosamente, declinando a oportunidade de escalar os 149 degraus que levam o visitante ao topo do edifício, enquanto o guia nos explicava que o monumento tinha sido mandado construir pelo fundador da cidade, o sultão Muhammad Quli Qutb Shah, em 1591. Com a cidade a ser dizimada pela peste, o Sultão prometeu a Alá que, se levasse a morte para outras paragens, permitindo o crescimento de Hyderabad, ele construiria o monumento em Sua homenagem. E foi isso que aconteceu. A peste foi dizimar para outras freguesias e Hyderabad, na altura um centro populacional relativamente modesto, cresceu até ser o que é hoje: uma megalópole de 7 milhões de almas e nunca menos de 93626 rickshaws, segundo os dados oficiais.

Incrivelmente, e apesar de termos andado em grupos separados, conseguimos regressar todos ao autocarro e, depois de uma nova viagem pelas ruas da cidade em hora de ponta, chegar a tempo do jantar que decorreu num relvado a poucos metros do hotel. Novo embate com a gastronomia explosiva de Hyderabad, do qual saí outra vez derrotado, e conversa de chacha com dois designers alemães e uma poeta australiana cuja tese de doutoramento a tinha levado ao Bangladesh para um trabalho sobre as vidas de uma “closeted lesbian”, de uma “transgender woman”, de uma “unhappy housewife” e de uma “ruthless businesswoman” (esta inventei), o equivalente a um “four of a kind” em estudos de género ou, melhor dizendo, “four of a different kind”. Foi apenas um aperitivo para o jogo dos dias seguintes em que ganha quem grita mais alto contra: a) a sociedade patriarcal, b) o Ocidente, c) o Cristianismo, d) o Homem Branco, e) a polícia, f) a Direita, g) o Capitalismo, h) a conspiração branca. Mais preocupado com as prováveis e previsivelmente dolorosas consequências gastro-intestinais do consumo de comida picante, fiquei feliz por descobrir que o iogurte ajuda a amenizar os efeitos dos condimentos. E, com esta informação na cabeça, regressei ao hotel.

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Nessa noite, pensei em tudo o que tinha visto naquela cidade e percebi que, pela primeira vez na minha vida, estava no estrangeiro. Os países que já tinha visitado – todos europeus – com as idênticas ruas racionais, as mesmas lojas, a mesma disposição de elementos só ligeiramente diferentes entre si (em Budapeste temos a estátua de Petöfi e em Lisboa a de Camões), apareceram-me como encarnações de uma mesma ideia. Agora, atormentado pelo barulho infernal e incessante das buzinas que abafam até as sirenes das ambulâncias, aquele mundo ordeiro e previsível das cidades europeias surgiu-me como uma realidade tristíssima, desumana e morta, um museu a céu aberto destinado a turistas e coleccionadores de antiguidades. Enquanto as cidades europeias estão cheias de coisas antigas, ali abarrotavam de coisas velhas e, paradoxalmente, modernas. As antiguidades europeias estão arrumadas, catalogadas, embebidas em formol, enquanto aqui as velharias estão vivas, escapam aos rótulos e amanhã podem já não estar no sítio onde hoje as encontrámos. Não sabemos se pertencem ali ou se, como nós, estão apenas de passagem. Na ânsia de preservar, nós, europeus, sufocamos tudo como pais zelosos que apertam os filhos até à asfixia. Os filhos da Índia, toda a Índia – o comércio, os carros, os prédios, até os monumentos – são vagabundos. Não querem ser preservados. Querem respirar.

Na verdade, nunca tinha sentido uma cidade viva, a resfolegar como um cavalo indomável. Ali tudo era velho e improvisado, o que nos pareciam ruínas podiam ser prédios inacabados atravessados por um cheiro a açafrão e a caril, a frutas e a fritos e ao peixe cozinhado em enormes panelas a fumegar no meio da rua; os mesmos letreiros tanto serviam para anunciar hospitais e clínicas como para sinalizar lojas de braceletes e saris, restaurantes low-cost e oficinas; havia homens deitados em camionetas e sentados em cadeiras no meio da rua, entre o trânsito, como se estivessem à espera de ser recolhidos, homens a mijar para montes de entulho, outros a cortar cocos com catanas, motos com três e quatro passageiros, cabras vadias a trincar ervas e a focinhar no lixo debaixo de um viaduto de onde se via, ao longe, um sossegado campo de cricket onde treinavam algumas crianças de equipamentos alvíssimos, edifícios modernos lado a lado com outros de idade incerta, numa anarquia tão repleta de vida como uma feira medieval com eletricidade, internet sem fios e smartphones.

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Eis a cidade em constante mutação num país em que a economia informal anda perto dos 80%, o que faz com que tudo tenha um aspecto provisório, clandestino e desmontável, ou seja, tudo aquilo que é fugaz se sobrepõe ao que é permanente, como o palácio de Chowmahalla, escondido como um oásis, um templo secreto a que só os iniciados podem aceder e que os outros ignoram como se não existisse, como se fosse uma miragem. Por uma entrada discreta, fomos postos a salvo dessa confusão que atrai e repugna, que nos assusta, que nos faz temer pela sanidade daquelas pessoas, como se fosse impensável viver diariamente debaixo daquela agitação, como se vivessem habitualmente com o misto de desconforto e entorpecimento que eu experimentava pela primeira vez, como quando estamos numa daquelas diversões de feira de alta velocidade e desejamos que pare, porque não aguentamos mais, e desejamos que prossiga, porque sabemos que não vai parar por causa de nós.

Um livro, que comprei dias depois, intitulado Indian Cities, ajudou-me a perceber melhor a realidade que me era tão difícil descrever e entender sem recorrer aos equivalentes europeus que, porém, nunca lhe poderiam fazer justiça. “For decades, cities in poor countries have been regarded as a kind of misfit representation of the real city and their modernity, a kind of inauthentic, borrowed modernity. With so many poor people, slums and squatter settlements, lack of rules regarding land use, chaotic and disorderly growth, their existence and future have always been questioned by experts and contrasted to the proper cities or the well-planned and managed cities of the West.”

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A dificuldade em avaliar estas cidades de acordo com os seus peculiares critérios – dificuldade enfrentada até por quem estuda a sério estes assuntos – deu origem à criação de um conceito mais abrangente, o de “modernidade alternativa” ou de “modernidade indígena”, que me surgiu como perfeitamente adequado àquela realidade porque os conceitos de “atraso” ou de “sub-desenvolvimento” eram bisturis rombos para esquadrinhar aquele mundo tão complexo e que nunca, para ser completamente sincero, me pareceu “atrasado”. Outra ideia no livro que me ajudou a dar corpo de palavra aos meus pensamentos foi a de “cidade cinética”, “or the city of impermanence and temporary structures.” […] “While standard writing can cover the static city or the city of the established built environment, it is more difficult to capture the realities of the kinetic city.” Tentar captar em palavras uma cidade como Hyderabad era, acabei por perceber, como tentar prender uma sombra esquiva.

21
Fev17

Verão indiano (primeira parte)

Bruno Vieira Amaral

O primeiro indiano que conheci estava a dormir. O segundo também. Isto é mentira ou, melhor dizendo, é parcialmente verdade. O primeiro indiano que conheci foi o do serviço de estrangeiros e fronteiras no aeroporto de Mumbai, pelo que hesito entre considerá-lo indiano ou burocrata diligente, embora um tanto ensonado. A burocracia, apercebo-me quando viajo, não tem nação. É um conjunto universal de esgares, suspeitas e carimbos contrariados. O funcionário não me fez perguntas, pediu-me apenas para olhar para a câmara e pôr todos os dedos, à excepção do polegar, num aparelho. Agora sei que as minhas impressões digitais estão registadas e armazenadas numa gigantesca base de dados, pacientemente à espera do dia em que eu cometa um crime de alcance internacional.

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Recolhi a minha bagagem. Já passava das quatro da manhã, embora o movimento de carros e pessoas fosse frenético. Lá fora, encontrei Arun, motorista que segurava uma folha A4 com o meu nome e o logótipo do festival literário de Hyderabad. Fomos para o carro e perguntei-lhe quanto tempo era a viagem até ao hotel. Abanou a cabeça e não me respondeu, o que, em linguagem corporal local, significa entre 45 minutos e uma hora. No trajecto, Arun conduziu essencialmente com a buzina e os máximos. Não cheguei a perceber se conduzia pela esquerda e ultrapassava pela direita ou vice-versa. Era conforme. A única certeza é que, pelo menos àquela hora, os sinais vermelhos são facultativos. Arun passou vários sem qualquer comoção, sem aquela espécie de deliberação exasperada que exibimos quando passamos um sinal que acabou de ficar vermelho. Na verdade, ele passava os sinais vermelhos como se nem estivessem lá. Talvez eu é que não estivesse a ver bem as coisas. Nos dias seguintes, no meio do incessante trânsito caótico de Hyderabad – com rickshaws, motorizadas, SUV, autocarros obsoletos, carrinhas de transporte de mercadorias e peões aparentemente suicidas – perguntei-me se aquelas pessoas estariam mesmo a dirigir-se para algum lado – como quando alguém apanha o 732 porque quer ir para o Hospital de Santa Maria – ou se estariam apenas a circular até encontrarem um sítio onde lhes apetecesse ir ou onde percebessem que tinham alguma coisa para fazer.

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 Finalmente, perto das cinco da manhã, chegámos ao Plaza Hotel. O sossego era absoluto. A recepção estava praticamente às escuras. Reclinado na cadeira, um jovem dormia. Quando falei, deu um salto, limpou a boca, sorriu e foi chamar alguém lá dentro. Do interior de uma sala, veio um rapaz de cabelo desgrenhado, olhos de sono e que tratou logo de procurar o meu nome na lista do festival quando lhe disse que era um dos convidados. Após uma pesquisa infrutífera, encontrámos uma segunda lista na qual constava o meu nome. Tirou uma cópia do meu passaporte e lá fui eu para o quarto no sétimo andar. O hotel, percebi nos dias seguintes, era um bloco de cimento com humidade nas paredes e a atmosfera geral não de um lugar de lazer mas de uma sinistra colónia de férias para funcionários públicos. Os empregados pareciam ter todos entrado há pouco tempo ao serviço, como se o hotel estivesse apenas a funcionar para nos receber e fosse desactivado logo a seguir, reaproveitado para instalações do ministério da educação ou de um instituto de prevenção rodoviária. Nos dias que ali passei, a piscina só foi frequentada por pombos, que caminhavam cautelosamente à volta como se estudassem uma forma de a atravessar a nado, e por um indiano gordo (a propósito, saiu uma notícia num jornal local que indicava que as crianças de Hyderabad eram as mais obesas do país) que, no domingo de manhã, deu umas braçadas complexas, num esforço testemunhado pela mulher e um casal amigo.

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Na quinta-feira de manhã, após pouco mais de quatro horas de sono, tive o meu primeiro embate com a gastronomia indiana em condições que me eram francamente desfavoráveis: encontrava-me em desvantagem numérica e linguística, estava com jet-lag e, para não ofender ninguém, tinha decidido que teria de comer tudo aquilo que pusesse no prato. Cheguei pouco antes das dez e meia, hora a que acabava o pequeno-almoço, facto que me foi lembrado com autoritarismo pelo primeiro empregado com que me cruzei. Apressei-me a recolher alguma comida, não só fatias de pão branco, um ovo cozido e fruta fresca, mas também algo que, pelo aspecto, devia ser altamente nutritivo, mas que se revelou apenas insuportavelmente picante. Com um inequívoco ar de sofrimento que tentei transformar num ricto de dignidade, pedi ao empregado uma chávena de café. Olhou para o relógio e desapareceu por umas portas de saloon. Naquele momento, eu tentava negociar com o sabor inédito que me queimava a língua, o interior das bochechas, o esófago, fazendo-me derramar umas lágrimas breves de comoção pela dor que tinha de sofrer em silêncio. É indescritível a alegria que de mim se apoderou quando o empregado me trouxe uma chávena de um péssimo café que, pelo simples facto de ser café, me devolveu ao prado refrescante dos sabores familiares e me fez regressar mentalmente a esses lugares costumeiros em que me sinto em casa: uma pousada numa aldeia histórica, o adro de uma igreja na província, os barcos da Soflusa.

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Depois de me cruzar com um sujeito que carregava às costas um equipamento de desinfestação, cheguei ao quarto com a sensação de alívio de um pugilista amador que sobreviveu ao primeiro assalto contra o campeão do mundo de pesos-pesados. O almoço, apesar de todos os meus cuidados, não correu muito melhor, mesmo tendo levado para a refrega um litro de água mineral. Às três estava marcada uma visita guiada pela cidade. O nosso grupo era composto na sua maioria por escritores filipinos – o país convidado da oitava edição do festival – um dos quais exibia um rabo-de-cavalo que lhe dava o ar distinto de organizador de lutas clandestinas de cães na cidade de Manila. Programada pelo festival, a visita teve como guia um senhor ainda não vencido pelos anos que gritava bastante e era estranhamente parecido com Boutros Boutros-Ghali, o antigo secretário-geral das Nações Unidas. De vez em quando interrompia o discurso, não sei se para recuperar o fôlego ou se para se mostrar indignado por ninguém lhe estar a prestar muita atenção. Após quase uma hora de viagem, chegámos ao destino, não muito longe do Charminar, o ex-libris da cidade. Para começar, visitámos o Palácio de Chowmahalla, residência do último nizam de Hyderabad (até depois da independência, Hyderabad foi um principado governado pelos nizams). Eram muitas as famílias que se passeavam pelos magníficos jardins e pelas salas dos edifícios onde pudemos contemplar porcelanas dos séculos XVII e XVIII vindas de Inglaterra, da China e dos Países Baixos, uma colecção impressionante de armas brancas – adagas, cimitarras, espadas, punhais, cutelos, floretes – e retratos não muito favoráveis das várias gerações de nizams. No exterior, protegidos por um vidro de segurança, vimos os veículos de luxo que tinham servido os monarcas, incluindo um Rolls Royce Silver Ghost, de 1912, que segundo o guia não teria feito mais de 400 quilómetros, pois só tinha sido usado em ocasiões muito especiais. De todos os espaços, o Durbar Hall, local da coroação dos nizams, era o mais imponente, com as suas colunas de mármore e os 19 candelabros de cristal belga pendentes do tecto.

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