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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

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04
Mai18

A minha curiosa carreira de futebolista

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ - Julho/Agosto 2017

Agora que os jogadores de futebol que têm a minha idade são apenas a reserva moral dos seus clubes ou há muito se dedicaram ao futebol de praia e à restauração, resolvi fazer um balanço da minha carreira enquanto futebolista. Foi uma carreira modestíssima. Os palcos onde exibi o meu escasso talento foram recreios de escola, campos improvisados em baldios, o pedaço de relva em frente ao meu prédio, o Arregaça e qualquer um desses lugares dos subúrbios onde se pudesse fazer um rectângulo de jogo e inventar balizas com recurso a pedras, árvores ou postes.

Fui guarda-redes e, por brincadeira, chamavam-me Manuel Xadrez, numa homenagem ao príncipe das balizas que era Vítor Damas. Mais tarde, quando os confrontos entre Mozer e Fernando Couto eram o ponto alto dos clássicos, joguei a central, varrendo todo o meu raio de ação com entradas que, em relva, já seriam temerárias, mas que, no alcatrão, tinham algo de suicida. Até que, numa fase tardia desta minha carreira esquecida, me fixei como ponta-de-lança. Aí especializei-me na arte da estocada final, com frequência desvalorizada porque o avançado “só tem de encostar a bola para o fundo das redes.” Como se isso fosse fácil.

Antes de escapelizar glórias da minha vida enquanto artilheiro, devo reconhecer que, a ter tido algum futuro no futebol, é bem provável que o meu destino tivesse sido a baliza. Durante não mais de duas épocas, no final da década de 70, o meu pai tinha defendido com algum engenho a baliza dos juniores do Barreirense. Ainda hoje, quando encontro alguém desses tempos, é normal falarem-me dessas proezas menores como se eu próprio as tivesse testemunhado. O certo é que eu tinha jeito para a baliza, como comprovam as comemorações dos meus colegas do 8º ano numa tarde em que, graças às minhas defesas impossíveis, jogámos várias horas ao roda-bota-fora sem sairmos.

Mas há nos festejos à volta de um guarda-redes, como quando defende um penálti, por exemplo, ou faz uma defesa extraordinária no último minuto, algo que está mais próximo da agonia do que da alegria. Se há alegria, esta é uma alegria pesada e, diria, quase triste, cheia de feridas e contusões, que sobe à garganta em urros pré-históricos de resistentes cavernosos. A excelência de uma defesa é e será sempre a excelência de um obstáculo e a alegria que poderá proporcionar será sempre a alegria defeituosa de se ter evitado a alegria maior do adversário.

Isto para dizer que nenhuma defesa que fiz nestes jogos de muda aos 2 e acaba aos 4, se compara àquele golo duvidoso que, na minha memória, foi o primeiro que marquei na escola primária. Tinha aulas à tarde e, antes disso, ocupávamos o tempo a jogar à bola, quando alguém levava uma. Os postes eram paralelepípedos e o golo foi marcado à boca da baliza, bastou-me encostar. No entanto, parece que a bola passou muito perto da pedra e não houve consenso quanto à validade do golo. Já havia em nós algo destes aborrecidos comentadores de segunda-feira, que drenam do futebol toda a vitalidade com as suas discussões taciturnas sobre faltas e foras-de-jogo.

Mas da alegria pura, espontânea e universal daquele golo, nunca duvidei. Quando me redescobri como ponta-de-lança das manhãs de sábado no nosso Arregaça, divertia-me a estudar todas as declinações da felicidade do golo e a experimentar os diferentes graus do êxtase consoante o golo surgia depois de uma finta, na sequência de um cruzamento de um colega, após uma jogada de contra-ataque, numa bomba chutada de longe, num raro cabeceamento. Há uns meses, na Índia, em Cochim, fiquei a ver um grupo de miúdos da escola a jogarem num descampado enorme. Jogavam com uma bola de ténis e levantavam grandes nuvens de poeira vermelha quando a disputavam. Depois, do meio da confusão, emergiu o portador da bola, que correu imparável para a baliza e, logo a seguir, deu-se a explosão, aquele momento que Fernando Gomes comparava a um orgasmo mas que é na verdade muito mais do que esse espasmo animal, é uma flutuação do espírito, um acordo momentâneo entre todas as coisas, um segundo em que todos os obstáculos são removidos e a alegria não parece apenas um prémio fortuito, mas o fim último da existência.

Não posso saber que alegrias esqueci, mas sei bem que esta alegria do primeiro golo é tão real como naquele dia e, por isso, não os posso considerar, ao golo e à alegria, como menores. E talvez haja nesse momento longínquo o brinde de uma lição: às vezes não é preciso inventar, basta ter a audácia infantil de encostar para o fundo das redes.

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