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Circo da Lama

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

"Se ele for para a Suiça, não lhe guardo as vacas", David Queiroz, pai de António, vencedor da Casa dos Segredos

Circo da Lama

15
Nov18

O desconcerto do senhor Chico

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de julho/agosto 2018

Por razões económicas e de temperamento, mais estas do que aquelas, consigo lembrar-me sem grande esforço de todos os concertos a que assisti na vida. O primeiro, levado pela mão de um tio e financiado pela generosidade de um primo, foi o dos GNR em Alvalade, no dia 10 de outubro de 1992, com um Rei Reininho (não é gralha), o maior poeta português ao vivo, como lhe chamou Paulo Varela Gomes, a fazer de Sioux e de novo rocker, ora desesperado como um Ian Curtis, ora fêmea como um Ney Matogrosso. Anos depois, iniciei-me em festivais selvagens no primeiro dos Sudoestes, sem outro objetivo que não ver os Blur. Vim de lá com o bónus de um concerto memóravel dos Suede – a voz de Brett Anderson a ecoar pela estrada escura até à Zambujeira – mas nunca repeti a experiência bucólica porque a minha ideia de liberdade é mais urbana do que banhar-me num canal de rega, dormir sob os pinheiros e defecar ao ar livre.

Foi por essa altura, reconheço, que estive mais perto de me render ao ritual dos concertos. Em 99, na Aula Magna, invadi, juntamente com outros entusiasmados, o palco onde os The Gift ainda tocavam, num delírio de bacantes adolescentes. Do cabelo de Sónia Tavares roubei uma pena que o enfeitava, pena essa que, como outras penas, guardei durante anos como se fosse a relíquia de uma santa. Foi também nesse ano que assisti ao melhor concerto da minha vida, perto da praia do Barreiro, num palco com toda a rudeza das empreitadas municipais e menos de uma dezena de corajosos – menos certamente do que os músicos em palco – a fazer de público. Lá em cima, JP Simões arrastava atrás de si, com a força cega de uma locomotiva, os seus cúmplices dos Belle Chase Hotel. Terminado o concerto, convivi com a banda no contentor que lhes serviu de camarim, colhi pérolas de sabedoria instantânea, alguns autógrafos e o sorriso da violinista.

Porém, nem a agradável sensação de euforia gregária, irracional, ditirâmbica me fez abandonar muito mais vezes o conforto do lar para assistir a concertos: vi os Blur em Lisboa para prestar tributo ao adolescente que fui e para ver Charles Aznavour paguei uma pequena fortuna, ainda assim insuficiente para saldar a minha dívida eterna. Há dias, uma vez mais, violei o meu temperamento, abdiquei dos meus fracos princípios, aliviei-me de uma quantia indeterminada de euros e fui ver a voz e ouvir o corpo de um septuagenário de olhos de cor indecisa como o mar, às vezes verde, outras, azul. Dez minutos depois da hora marcada, o senhor Francisco Buarque de Hollanda entrou em palco, vestido de preto (pelo menos assim parecia ao longe), samba e solidão. Cantou, tocou viola, gracejou, pôs um chapéu de malandro e, malandro, ensaiou uns passos de dança, pôs um sorriso de criança e, carioca, sorriu com a alegria de um pinto no lixo. Depois mostrou aos homens ali presentes o pouco que sabem sobre as mulheres e no coração das mulheres sentadas na plateia e nos camarotes plantou a esperança insensata de que, algures no mundo, haja um homem assim à espera delas, que saiba o que ele sabe, que cante como ele canta e que sorria como ele sorri. Por respeito aos crentes, Chico terminou em tons verde-rubros, agradecendo a esperança e pedindo alecrim, como um vizinho à varanda do outro lado do mar.

De mão dada com a minha mulher – ela a trair-me em pensamento com o senhor Francisco Buarque e eu, em pensamento, a perdoar-lhe a traição – saímos para a noite de Lisboa, que nos pareceu mais amena que antes, mais humana, mais nossa. Enquanto subíamos a Avenida da Liberdade, trauteávamos canções que ele não tinha cantado, histórias de amantes que fazem samba e amor até às tantas, histórias de Ritas nem sempre Ritas que levam sempre o nosso sorriso e os nossos vinte anos, histórias de mulheres despeitadas que servem vinganças frias olhos nos olhos. Naquele momento, passou por nós uma mulher a descer a avenida, rente às bancadas erguidas para o desfile das marchas populares. Quando olhámos para trás, já não a vimos e lembrámo-nos da moça do sonho que ele cantara há momentos, aquela que desaparece ao mínimo toque e cujo rosto, com um sopro, se desfaz em pó. Como é que era o resto? Ah, era assim: “há de haver um confuso casarão, onde os sonhos serão reais e a vida não.”

15
Dez17

É difícil amar os outros

Bruno Vieira Amaral

Crónica publicada na GQ de Junho de 2017

 

Estávamos naquela idade em que ainda exploramos os limites do mundo, ou seja, os limites da nossa crueldade. Passou por nós um cão. Tentámos atirá-lo para uma vala. O cão fugiu. Tão grande era a nossa estupidez que não desistimos de imediato dos nossos intentos. Atraímos o cão com um chamamento amigável. Ele veio, dócil, manso, confiado nos animais que o chamavam. E, como estava escrito desde o início dos tempos, lá o atirámos para a vala com um pontapé.

Quase no final de A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera escreve o seguinte: “Logo no começo do Génesis, está escrito que Deus criou o homem para que ele reinasse sobre os pássaros, os peixes e o gado. […] Ninguém pode ter a certeza absoluta que Deus realmente queria que o homem reinasse sobre todas as outras criaturas. O mais provável é que o homem tenha inventado Deus para santificar o seu poder sobre a vaca e o cavalo, poder esse que ele usurpara.” Para Kundera, a bondade do homem só se pode manifestar “em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma”, os animais. Seguindo esta lógica, também a verdadeira crueldade só se poderia manifestar quando exercida sobre os animais, aqueles que, por decreto divino ou humana soberba, temos à nossa mercê. Essa crueldade seria como que um prenúncio da (ou um treino para) crueldade sobre os seres humanos. Se somos capazes de magoar quem não nos ameaça porque não o faríamos contra aqueles que nos podem resistir? Kundera conta que, na Checoslováquia, antes de passarem aos alvos humanos, os russos organizaram campanhas de extermínio de cães com o argumento de que estes sujavam os passeios e constituíam um risco para a saúde infantil: “era preciso consolidar essa agressividade […]. Era preciso primeiro treiná-la contra um alvo provisório. Esse alvo, foram os animais.”

A violência gratuita sobre os animais como antecâmara do homicídio está presente em duas cenas da literatura que, em parte, moldaram a minha sensibilidade. Em Aparição, Carolino sente uma vertigem de poder quando mata uma galinha à pedrada. “O homem é que é Deus porque pode matar”, conclui. No livro O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar, Yukio Mishima descreve a morte de um gato às mãos de um grupo de adolescentes. “Fui eu que o matei. Posso fazer tudo, por mais terrível que seja”, pensa um dos adolescentes. Mais tarde, em cada uma das histórias, os adolescentes acabam por assassinar alguém.

Mas se a maldade dirigida contra os animais pode indiciar uma falta de misericórdia que facilmente encontra um novo alvo nos nossos semelhantes, a bondade que manifestamos em relação aos animais, por ser pura e gratuita, não se traduz necessariamente em compaixão pelos outros seres humanos. A maldade contra um animal desumaniza-nos, mas a compaixão por um animal não nos humaniza, no sentido de nos tornar mais sensíveis ao sofrimento de outros seres humanos. Aliás, aquela bondade, radical, absoluta e que não exige qualquer contrapartida, pode tornar-nos indiferentes ao sofrimento humano mais próximo de nós, em cuja avaliação está sempre envolvido um julgamento moral (por exemplo, pensarmos no que a outra pessoa terá feito para se encontrar naquela situação de sofrimento).

O argumentista Jean-Claude Carrière lembra um episódio da Revolução Francesa narrado por Restif de La Bretonne que o impressionou fortemente. Um condenado à morte é levado para o cadafalso e é seguido pelo seu cão. O homem segura o cão e pede que alguém tome conta dele. A multidão insulta-o. Os guardas impacientes tiram-lhe o cão das mãos e executam o homem na guilhotina. O cão lambe o sangue do dono que escorre pelo chão. Os guardas matam o cão à facada e a multidão grita: “Assassinos! Que mal é que o cãozinho vos fez?” A multidão, que momentos antes tinha exigido e festejado a morte de um homem (muito provavelmente um criminoso), enche-se de compaixão pelo pobre animal. Há uns tempos, numa esplanada, enquanto comia um suculento pastel de Chaves, aproximou-se de mim, silenciosamente, uma cadela. Não ganiu, não abanou a cauda, não ladrou. Cravou em mim uns olhos cheios de palavras que não podia dizer. Uns olhos humaníssimos que suplicavam o pão. Senti por aquele animal o que nunca sinto quando aquele homem, habitualmente à porta do supermercado onde faço as compras, me pede uns trocos para comer qualquer coisa porque não consigo evitar julgar o meu semelhante. Se, de certa forma, a crueldade contra os animais é mais censurável, a bondade que lhes dirigimos também é menos louvável. É mais fácil amar um cão que sofre do que um homem que nos pode ofender.

Regresso ao cão do início da crónica. Saiu rapidamente da vala. Terá esquecido o episódio e terá entregado novamente a sua confiança a outros humanos dela merecedores. Eu é que nunca mais o esqueci e nunca mais voltei a confiar em mim. Queria sentir por pessoas que magoei o que sinto por aquele cão. E não consigo. É difícil amar os outros.

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